OS SUPER-IDOSOS

 

Três pessoas que desafiam o envelhecimento mostram-nos como o fazem.

 

BRUCE GRIERSON

FOTOGRAFIAS DE JOCELYN MICHEL

 

PEDEM MUITAS VEZES CONSELHO ao Dr. Ephraim P. Engleman* sobre como desfrutar de uma velhice saudável. O reumatologista americano do prestigiado centro de investigação da Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF), fez 104 anos em março. «Escolha bem os seus pais», responde sorridente.

Tal como muitas piadas, esta contém um grão de verdade. Os genes são importantes, mas não são a história toda, ou sequer a maior parte dela. Os cientistas dizem que a longevidade é 30% de ADN e 70% de outros fatores, incluindo escolhas de estilo de vida e estratégias psicológicas.

Agora possuímos toneladas de da­dos de estudos longitudinais, de es­tudos sobre gémeos e análises sobre os mais velhos de nós. Resumir toda a sabedoria encontrada ali numa pala­vra parece tonto, mas aqui vai:

Adaptação.

Os homens precisam de ser desa­fiados. Continuamente. Quando o so­mos, tudo em nós se torna um pouco mais durável.

O princípio aplica-se em todas as dimensões da nossa vida, até aque­las não facilmente medidas por um exame ao coração ou numa imagem do cérebro. Sabedoria, caráter, espí­rito, o que quer que estas qualidades sejam de facto, são apuradas no fogo da «dificuldade quase ingerível», não menos do que o sistema cardiovas­cular de um maratonista ou o córtex frontal de um grão-mestre de xadrez. Pessoas que encontram formas de viver no que a mística do século XII

Hildegard von Bingen chamou «a fronteira verde e crescente», em tudo o que fazem são jovens – não importa o que diga a sua certidão de nasci­mento.

 

MANTENHA-SE EM MOVIMENTO

Betty Jean «BJ» McHugh, que fará 88 anos este mês (novembro de 2015), é a mais rápida maratonista do planeta no seu grupo etário por uma grande margem. Durante a Maratona de Ho­nolulu de 2012, chegou à meta em cinco horas e 14 minutos, batendo o recorde anterior em perto de meia hora. Desde a sua primeira corrida de estrada aos 51 anos, a enérgica mãe de quatro filhos de North Vancouver bateu mais de 30 recordes mundiais.

Corredores mais velhos não são uma imagem rara nas maratonas das grandes cidades, mas os números caem bastante por volta dos 80 anos. Por razões que os cientistas não con­seguem precisar, o corpo começa a desgastar-se ao dobro do ritmo. A massa muscular diminui acentuada­mente. Os pulmões perdem elastici­dade. As mitocôndrias – as pequenas centrais de energia das nossas células – degradam-se. Os ossos ficam mais finos. O equilíbrio falha. Mas algumas pessoas, como Betty Jean, encontram uma forma de se manterem jovens mesmo perante tão formidáveis ven­tos adversos.

Então, qual é o seu segredo?

Para começar, precisa de determi­nação. As maratonas que Betty Jean corre agora são bastante mais difíceis do que a primeira que correu há 33 anos, mesmo que tenha abrandado significativamente o ritmo. Por volta do quilómetro 24, «há uma pequena guerra a ter lugar na minha mente», diz rindo. É preciso uma enorme força de vontade para não parar e andar.

Há nela um nível de inquietação produtiva – a mesma inquietação que a fez começar a correr. A sua neces­sidade de permanente movimento, qual tubarão, pode ser um fator tão importante como o treino do exercí­cio em si.

Betty Jean nunca para o corpo du­rante muito tempo. Não se senta du­rante muito tempo sem mudar de po­sição. A televisão nunca é ligada antes das notícias das seis. Prefere andar a conduzir, mesmo para os seus jogos de bridge, que são a cinco quilóme­tros.

Há cada vez mais indícios de que precisamos de nos movimentar tanto como precisamos de exercício. Joan Vernikos, ex-diretora de ciências da vida na NASA, sugere que o melhor exercício que podemos fazer é pormo­-nos de pé frequentemente. De novo, trata-se de desafiar o corpo – neste caso, com gravidade. E levantarmo­-nos repetidamente estimula a circu­lação, mantendo os sensores de pres­são sanguínea afinados. Com o movi­mento temos energia, e com a energia temos – no caso de Betty Jean – a ma­gia para ser um modelo a seguir.

«Num dia em que andava a correr, vi um camião encostar», lembra. «Saiu de lá um tipo e disse, “Você é a BJ McHugh, não é?» Ela reconheceu-o. Duas décadas antes ele interpelara­-a quando ela terminava uma corrida longa e perguntou-lhe a idade. Na altura ele aparentava ter problemas, mas desta vez irradiava saúde. Ele disse: «Mudei completamente a mi­nha vida e qualifiquei-me para a ma­ratona de Boston.»

 

MANTENHA-SE ATENTO

O Dr. Ephraim P. Engleman não aceita novos doentes, e começou a sentir-se obrigado a sugerir aos seus habituais que «talvez tenha chegado a altura de pensar em arranjar outro médico». Não obrigado, dizem eles. Mantêm-se com ele. A experiência e a sabedoria são coisas que não se en­contram através do Google.

Engleman, que é provavelmente o médico em atividade mais velho da América, recentemente renovou a sua carta de condução («por isso estou ga­rantido até aos 109»), mas, acedendo aos desejos da sua família, por vezes deixa alguém conduzi-lo nos 30 quiló-metros até ao trabalho, no Centro de Investigação de Reumatismo Rosa­lind Russel/Ephraim P. Engleman na UCSF de que é diretor fundador. Uma vez lá, responde a correspondência, reúne com colegas e atende os seus pacientes.

O Dr. Engleman faz parte dos 15% a 25% de pessoas com mais de 100 anos que ainda não perderam o tino. As probabilidades de um indivíduo de­senvolver demência duplicam a cada cinco anos depois dos 65. O cérebro da pessoa de 90 anos média é aproxi­madamente do tamanho do de uma criança de 3 anos. Tipicamente, o en­colhimento ocorre no córtex frontal e no hipocampo, quartéis-generais do planeamento e do preenchimento da memória, respetivamente.

Algumas pessoas muito velhas cuja massa cinzenta ainda funciona a alto nível devem muito ao que os cientistas do cérebro chamam «re­serva cognitiva» – um sistema de re­serva mantém o cérebro a funcionar mesmo com o estabelecimento da senescência.

A reserva cognitiva é a chave para envelhecer bem do pescoço para cima. Há algumas formas de a desen­volver.

Fazendo exercício, de preferência vigoroso. Que o Dr. Engleman não faz. («Já nem ando o que andava», diz, por causa de problemas crescentes nas costas.)

Mantendo o cérebro continua­mente desafiado com leitura, escrita, consultando blogues, resolvendo puzzles, jogando bridge, viajando, aprendendo línguas, contanto histó­rias.

«Enriquecimento intelectual para a vida inteira» parece atrasar o desen­volvimento de problemas cognitivos entre três a oito anos, nota Prashan­thi Vemuri, o principal investigador num estudo saído da Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota, publicado no JAMA Neurology em agosto de 2014.

Quando o cérebro encontra novi­dade é forçado a adaptar-se. A eclosão de novas células cinzentas não tem limite de idade conhecido. Por isso, não só um burro velho pode aprender línguas, como isso é essencial para que o burro se mantenha esperto. O Dr. Engleman, entre outras diver­sões não relacionadas com o traba­lho, é apresentador num clube social local – e escreve o seu próprio mate­rial.

Ele pode ter também uma arma secreta do seu lado: música. Outrora um prodígio do violino, toca com um quarteto de câmara uma vez por se­mana na sua casa em San Mateo, Ca­lifórnia, onde vive com a sua mulher, Jean, que fará 100 anos no mês que vem (dezembro de 2015). «Tocar mú­sica», diz, «é um verdadeiro estímulo – e muito, muito bom para a alma».

A ciência corrobora a sua afirma­ção. Pelo menos, a primeira parte. To­car música parece desafiar o cérebro de formas que oferecem significativa proteção para a deficiência cognitiva e a demência, sugerem estudos. O Dr. Richard S. Isaacson, diretor fundador da Clínica de Prevenção da Alzhei­mer no New York-Presbyterian/Weill Cornell Medical Center, cita seis estu­dos que ajudaram a construir a tese. Num deles, quatro semanas de tera­pia musical aumentaram o número de neurotransmissores no sangue de doentes de Alzheimer. Ficou tão convencido pelos dados que pegou de novo na sua guitarra – e agora toca baixo numa banda de neurocientis­tas. Chamam-se The Regenerates.

 

ESTENDA A MÃO

Na pequena aldeia francesa de Trosly-Breuil, a norte de Paris, Jean Vanier, de 87 anos, vive uma vida simples. Todos os dias, percorre a pé a curta distância entre a sua casa e a residência coletiva que estabe­leceu há 51 anos. Ali come, ri, lava os pratos e reza com a sua «famí­lia» adotiva. Esta é a primeira co­munidade L’Arche. Fundada sob a visão de Vanier, a organização está construída em torno da ideia de que se adultos com problemas men­tais fossem postos em casas parti-culares juntamente com pessoas sem deficiências, os resultados seriam be­néficos para ambos os lados – cada um ver-se-ia refletido no outro.

Vanier outrora parecia destinado a outro tipo de vida. Tendo escrito a sua dissertação de doutoramento so­bre Aristóteles, o natural do Canadá ensinou durante um curto período de tempo filosofia na Universidade de Toronto. Mas havia em Vanier uma curiosidade espiritual que a academia não conseguia satisfazer, e seguiu um mentor, um padre domi­nicano chamado Thomas Philippe, até França, assumindo uma vida de pobreza voluntária, e desafio diário.

«Todos nascemos numa vulnera­bilidade imensa, morremos numa vulnerabilidade imensa, e pelo meio das duas coisas, temos de conseguir harmonizar força e fraqueza», diz Vanier. Os deficientes oferecem-nos um grande dom. Ensinam-nos a ser­mos mais humanos. De um modo geral, acomodar os desejos, as pecu­liaridades e as exigências de outros testa a nossa paciência e, ao fazê-lo, fortalece-a.

Tendemos a pensar na espiritua­lidade em termos de meditação ou talvez oração, uma viagem interior pessoal. Para Vanier isso é apenas parte da história. Com efeito, numa fase da vida em que muitas pessoas começam a fechar-se – a novas expe­riências, novas ideias, novas pessoas – Vanier aconselha-nos a abrir-nos. Em vez de passarmos os nossos últi­mos anos a cimentar o nosso próprio conforto dentro de pequenas tribos, devemos abrir-nos aos outros. No que podemos chamar uma resposta adaptativa da alma, empatia gera em­patia.

Diz Vanier: «Eu cresci. Ainda tenho mais para crescer – ter menos barrei­ras, ser mais aberto para com as pes­soas. A história não acabou. Tenho 87, mas a história continua.»

No seu famoso Estudo Grant, que começou em 1938 e acompanhou um grupo de alunos de Harvard para o resto das suas vidas, o psiquiatra George Vaillant descobriu que os que sobreviveram e prosperaram até uma idade avançada foram os que, entre outras coisas, descobriram como amar e ser amados.

Se há uma receita fiável para enve­lhecer bem cordialmente – do cora­ção – é esta. Mantenha a companhia de pessoas de quem gosta, e que gos­tam de si.

 

É TENTADOR ver BJ McHugh, o Dr. Ephraim P. Engleman e Jean Vanier como modelos de brilhante envelhecimento do corpo, do cérebro e da alma. Mas as formas como as pessoas envelhecem de modo brilhante não são mutuamente exclusivas. Na ver­dade, estas três – bem como as de ho­mens e mulheres espetacularmente robustos de todos os tipos – têm um bom bocado em comum.

Todos têm um forte sentido de pro­pósito que os faz levantar da cama todas as manhãs. E o impulso está virado para fora: todos os três foram atraídos para profissões de ajuda (BJ é uma enfermeira reformada). Quando o psicólogo Howard S. Frie­dman, um distinto professor de psi­cologia da Universidade da Califór­nia em Riverside, estava a compilar dados para o Projeto Longevidade – que seguiu mais de 1500 crianças americanas até à senilidade ou até à sepultura – descobriu um padrão, os que trabalhavam mais tinham as vidas mais longas.

E assim voltamos à velha fórmula: crescer, adaptar-se, continuar a viver. Os papagaios de papel que permane­cem no céu mais tempo estão ali pela sua resistência.