PERDIDO no ÁRTICO

 

À distância, um lobo uivou e Brian uivou de volta. Depois tomou uma decisão: se quisesse voltar a ver a sua família, teria de ir a pé.

 

NICHOLAS HUNE-BROWN

 

AO QUINTO DIA QUE BRIAN KOONOO passou sozinho no meio do nada, a neve parou e o sol aqueceu o ar do Ártico. Brian aventurou-se para fora da tenda, apertando a sua parca e ajustando as botas de pele de foca. Olhou para os bancos de neve, que se espalhavam no horizonte em todas as direções.

 

Era o dia 17 de maio de 2015, e Brian, então com 36 anos, estava fora do al­cance das comunicações desde dia 13. Havia por certo pessoas à sua procura, pensou, mas quais seriam as probabilidades de o encontrarem e à sua moto de neve avariada, sozi­nho como estava na desoladora vas­tidão nevada do Círculo Polar Ártico? Brian subiu à colina mais próxima do se acampamento improvisado e observou o mostrador do seu rádio portátil, esperando apanhar um si­nal. Fez uma fogueira, usando o lixo que tinha e algum óleo de cozinhar, e o fogo ardeu quente e limpo, fa­zendo uma chama sem fumo. Olhou para o caminho de onde tinha vindo. A neve cobrira as marcas da moto. Qualquer avião à procura do caçador inuíte perdido teria dificuldade em localizá-lo – um ponto de cor num branco infinito.

Pela primeira vez, Brian sentiu uma esmagadora sensação de desespero. Pensou na sua mulher e nas cinco filhas que deviam estar preocupadas com ele, lá em casa, em Pond Inlet, no Nunavut, no norte do Canadá. Co­meçou a chorar. À distância, um lobo uivou, e Brian uivou de volta. Depois, tomou a sua decisão. Se quisesse vol­tar a ver a sua família, teria de ir a pé.

 

A VIAGEM COMEÇARA como ex­pedição de caça. Pond Inlet é um povoado de perto de 1500 pessoas na ponta norte da ilha Baffin – uma coleção de casas de metal corro­ído na orla do gelo, onde o frio do mar se derrete no oceano aberto. Nos últimos anos, a caça de caribu vem sendo restringida, para que a manada, cada vez menor, possa re­cuperar, mas no continente ainda havia bastantes animais. O plano de Brian era ambicioso: iria viajar quase 500 quilómetros pela tundra numa moto de neve, rebocando um trenó com mantimentos. Algures a sul de Hall Beach, 450 quilómetros a sul de Pond Inlet, iria encontrar-se com um grupo de amigos, passar alguns dias a caçar caribus e, depois, se tivesse sorte, trazer a muito necessária caça para a sua família.

A 10 de maio, Brian deixou a mu­lher e as filhas, viajando 20 horas para sudeste sobre neve e gelo mari­nho, dormiu um pouco e continuou até chegar a Igloolik, quase 400 quilómetros para sul, a 12 de maio. Passou a noite com o seu amigo de infância Perry Atagootak e retomou a viagem no dia seguinte, passando por Hall Beach.

Caçador desde os três anos e em­pregado dos Parques do Canadá, Brian tinha muita experiência de vida na natureza. Depois de deixar Hall Beach, no entanto, começaram os azares. O plano tinha sido viajar até uma série de cabinas isoladas na natureza – estruturas simples que a população local usava. Iria usar o seu rádio SSB, suficientemente po­deroso para atingir grandes distân­cias, para determinar exatamente onde estavam os seus companheiros de caça.

Quando parou na primeira cabina, percebeu que o saco que continha esse aparelho e o seu saco-cama tinham caído do trenó durante a viagem sobre terreno irregular – estavam perdidos algures na neve. Brian não tinha forma de comunicar exceto por um rádio de mão com um sinal tão fraco que mal ultrapassava o alcance da vista. Passou ali a noite, depois decidiu que a melhor opção era ir até Repulse Bay, a um dia de viagem.

Mais a sul, o terreno plano dava lugar a colinas e vales, com rochas e bancos de neve que ameaçavam en­golir a moto. Nessa tarde, o veículo morreu, atingido por um problema de transmissão. Compreendendo que estava perdido, Brian sabia que o melhor que tinha a fazer era ficar quieto e esperar salvamento. Mon­tou a tenda a acampou, mantendo o fogão de campismo aceso para tentar manter-se quente sem o saco-cama.

 

QUANDO BRIAN PARTIU, a sua mu­lher, Samantha, não sabia exatamente quando voltaria a ter notícias dele. Numa expedição de caça no Norte, as comunicações são pouco fiáveis, e os planos mudam depressa. Samantha, de 34 anos, estava a tirar um curso de educadora infantil, enquanto criava as cinco filhas do casal, com idades entre os 3 e os 13. Confiava que o marido conseguia desenrascar-se sozinho. Mas a 15 de maio, Perry Atagootak perguntou pelo Facebook se alguém tinha visto o seu amigo. Haviam pas­sado três dias desde que Brian passara a noite em Igloolik. Quando Samanta leu a publicação, sentiu um murro no estômago. «Liguei à mãe dele e disse-lhe: “Estou preocupada com o Brian.”», conta. A mãe de Brian con­tactou o colega dele dos Parques do Canadá, que notificou as buscas e sal­vamentos.

Ao longo dos quatro dias seguintes, enquanto Brian enfrentava o frio so­zinho, reuniram-se equipas de busca e salvamento por todo o norte do Canadá. Nesta parte do país escas­samente povoada, com o seu clima impiedoso, um pequeno erro pode significar uma tragédia. Numa tarde de novembro de 2011, o presidente da câmara de Kimmirut, na ilha Baffin, foi caçar caribus e desapareceu na na­tureza. O seu corpo só foi descoberto no degelo de verão do ano seguinte.

Três motos de neve partiram de Pond Inlet, mas foram inicialmente travadas por vento e neve fortes. Qua­tro batedores partiram de Hall Beach e mais de Repulse Bay, todos voluntá­rios usando os seus próprios veículos para vasculhar o trilho em busca de qualquer indício do caçador desa­parecido. Nesse sábado, o Centro de Coordenação Conjunta em Trenton, Ontário, envolveu-se enviando um Twin Otter e um Hercules C-130 para voar entre Repulse Bay e Igloolik em busca de Brian.

Em casa, Samantha sentia-se a per­der a cabeça. Deveria saltar para den­tro de um avião e tentar encontrar o marido? O que devia dizer às filhas? Deitada na cama, tentava não olhar para o lugar onde devia estar Brian. Porque é que não o conseguem encon­trar?, afligia-se ela.

 

A 17 DE MAIO, BRIAN decidiu apro­veitar os céus momentaneamente limpos para tentar a sua sorte. Tinha comprado um sistema de GPS, mas precisava de ser ligado à moto de neve. Com uma ligação direta ao rádio, o aparelho ganhou vida. Estava a 60 qui­lómetros de Repulse Bay, a povoação mais próxima. Seria uma caminhada dura sobre relevo acidentado na neve, mas não tinha escolha.

Brian ferveu água e encheu a sua garrafa térmica. Juntou o fogão e a tenda no seu toldo, mas depressa per­cebeu que arrastar carga pesada seria impossível. Tomou a decisão de en­cher a sua mochila com o essencial: o pão e presunto que lhe restavam, ve­las de emergência, sacos de plástico, uma faca de caça, rádio GPS e muni­ções. Embrulhou a mochila no toldo e prendeu-o bem com uma corda. Veri­ficou as coordenadas e fixou os olhos no horizonte. Depois, pendurou a es­pingarda ao ombro e começou a andar.

Brian manteve um ritmo constante, avaliando a direção do vento e man­tendo as dunas de neve alinhadas para não se desviar da rota. Deslocava-se metodicamente pela neve, que tinha mais de meio metro de profundidade, tentando não transpirar demais nem ficar demasiado exausto, bebendo goles de água quente da garrafa en­quanto caminhava.

Em meados de maio, o sol não se põe acima do Círculo Polar Ártico. O tempo mais quente em breve der­reteria a neve, mas, para já, as tempe­raturas mantinham-se abaixo de zero, e parecia muito mais frio quando o vento levantava. Brian caminhou du­rante a tarde toda e uma boa parte da noite, cobrindo cerca de 25 quilóme­tros, até já não conseguir andar. Na margem do leito de um riacho, en­controu um monte de neve encostado a uma rocha. Com a faca cavou uma gruta de neve – um abrigo de emer­gência que o pai o tinha ensinado a construir. Escavou espaço suficiente para o corpo e tapou o buraco com o seu toldo. Aninhou-se lá dentro, co­meu e adormeceu.

Quando acordou, umas horas mais tarde, sentia-se revitalizado e pronto a caminhar. Mas o troço seguinte era mais difícil, com relevo mais aciden­tado. Começou a embrenhar-se nos jogos mentais em que nos envolve­mos quando estamos sozinhos e de­sesperados. Continua a subir, dizia a si mesmo, e vais ver uma cabana de caça do cimo do monte. Depois chegava ao topo só para ver outra colina.

A meio desse dia, Brian viu aviões à distância. A princípio presumiu que se dirigiam para uma das pequenas comunidades a norte. Quando volta­ram, percebeu que estavam à procura dele. Brian agitou a sua arma no ar, esperando que avistassem o brilho do metal. Quando se aproximaram, ligou o rádio, tentando sem resultado apa­nhar a sua frequência ao passarem por cima.

Nessa noite, havia menos neve, quase não tinha profundidade para construir um abrigo. Brian cortou al­guns blocos de neve de um monte e empilhou-os, depois esticou o seu toldo entre uma rocha e a parede improvisada. Acendeu uma vela de emergência e encheu a garrafa com neve, segurando-a sobre a chama até conseguir beber. A tremer, meteu os braços dentro da parca, enterrou a cara no forro e adormeceu.

 

NA MANHÃ SEGUINTE BRIAN ainda tremia – a sua respiração tinha criado condensação dentro da parca durante a noite. Estava um dia feio, com neve que reduzia a visibilidade a alguns metros à sua volta, e ventos de 60 quilómetros por hora que atravessa­vam como facas a sua parca húmida. A temperatura do centro do seu corpo estava a baixar, e a hipotermia insta­lava-se. Sabia que se não se mexesse depressa morreria.

Brian atirou rapidamente os seus mantimentos para a mochila. Quando puxou o fecho, ele partiu-se, por isso abandonou o saco. Meteu a faca, o GPS e o rádio nos bolsos, encheu o saco estanque com neve e enfiou-o dentro da parca, para derreter e ter água para beber. Depois agarrou na arma, enrolou o toldo em volta dos ombros e começou de novo a cami­nhar.

Com três dias de viagem a pé, com poucos alimentos, sono ou água, Brian estava em sofrimento. Cami­nhava 50 metros até colapsar na neve, ficando deitado até reunir a energia para se arrastar de novo em frente. A dado momento, o vento apanhou-lhe o toldo, arrancando-lho das mãos. Correu atrás do pedaço de plástico, mas estava fora de alcance. Fraco e exausto, viu-o afastar-se levado pelo vento. Com pouca água, estava a fi­car perigosamente desidratado. Uma perna teve uma cãibra, e Brian rezou em silêncio para ter forças, coxeando até recuperar a mobilidade. Depois a outra perna teve uma cãibra.

Esgotado, caiu de novo. Desta vez, não se levantou. É assim que é desis­tir, pensou, olhando para a neve a rodopiar no céu. As suas pernas des­cansavam. Deixou a mente vaguear. Ali deitado, Brian sonhou com a sua família. Em casa, em Pond Inlet, a vida deles era simples – ver filmes em casa, caçar focas sobre o gelo. Na sua cabeça, ouviu a filha mais nova, Alina, uma turbulenta aluna do pré­-escolar, que parecia estar sempre a rir, impossivelmente feliz. «Ataata», disse ela, a palavra inuíte para pai. De repente acordou com um choque. Um lagopus, ali perto, chamava insistente­mente num cacarejo irritante que pa­recia ficar cada vez mais sonoro. Brian sentou-se. OK, vou começar a andar, pensou ao pôr-se de pé. Quero ver a minha mulher. Quero ver as minhas filhas. Quero vê-las crescer.

Brian avançou com dificuldade. Por vezes as colinas eram tão íngre­mes que precisava de usar a faca para escavar degraus para os pés. A cerca de oito quilómetros de Repulse Bay, avistou torres de rádio – o primeiro sinal de uma comunidade. Camba­leou em frente até que avistou uma cabina no topo de uma colina. Com o que restava da sua energia, subiu e arrombou a porta.

Lá dentro, Brian ligou um fogão de campismo, e aqueceu imediatamente alguma neve, engolindo a água morna. Encontrou um pacote de sopa de ve­getais e comeu-o. Tirou as botas pela primeira vez numa semana e viu os pés – pálidos como a neve, encurvados e en­rugados. Depois encontrou um cobertor, deitou-se no sofá e dormiu 12 horas.

 

A CAMINHADA ATÉ AO POVOADO, no dia seguinte, 20 de maio, foi fácil, e Brian chegou às 5h30 da manhã, com toda a gente ainda a dormir. De repente, sentiu timidez. Não conhecia ninguém em Repulse Bay, e iria pare­cer um louco.

Viu um táxi a chegar junto de uma casa e imaginou que os seus habitan­tes estariam acordados. Aproximou-se da casa, tirou a espingarda e a faca e abriu a porta.

Uma mulher dormitava no sofá. Brian bateu na parede e, com emba­raço, começou a explicar quem era e o que tinha passado. Não chegou muito longe até desfalecer. A mulher fitava-o. «Tu és o tipo de quem andá­vamos à procura», disse. O marido da mulher tinha participado na operação de busca e salvamento, tentando en­contrar o homem que tinha acabado de lhe aparecer à porta.

 

HOJE, NA SEGURANÇA da sua casa, Brian fica emocionado quando relem­bra a receção que teve. «Todos esta­vam felizes onde quer que eu fosse», diz. Lembra como aquele casal lhe deu bebidas quentes, o banquete no ginásio da escola, a forma como os anciões do povoado vieram conhecê­-lo – o homem que tinha sobrevivido ao Ártico selvagem, o homem que se tinha recusado a desistir.

De volta a Pond Inlet, teve outra rece­ção. Na orla da cidade, onde o mar en­contra a costa, a sua comunidade veio recebê-lo. Quando Brian segurou a sua mulher e as filhas nos braços desfaleceu de novo. Chorou – todos choraram – e depois a multidão bateu palmas a sau­dou-o quando ele deu os últimos pas­sos na direção de casa.