Piodão

 

As casas de xisto de Piodão trepam pela encosta em perfeita simbiose com a montanha e o pinheiral.

Eu gostava de dizer que piodão é as mais linda aldeia portuguesa. Jamais alguém que um dia a veja a esquecerá. Melhor ainda se entrar lá dentro daquele corpo feito de xisto, u enigmático espírito habitando as ruas mais desertas, se ruas se podem chamar os labirínticos corredores que ao longo de séculos se geraram com o crescimento das casas, onde moraram homens e os seus animais. Onde poucos moram hoje.

As lendas não explicam bem o nascimento da aldeia, que em 1527 era apenas um lugar para dois casais de moradores. O que explica a aldeia é a serra bravia de xisto e pinheiral. E é a coragem dos homens que que a romperam e a domesticaram apenas um pouco quebrando a pedra, semeando centeio e milho, criando gado, abrigando as abelhas em cortiços, quase se bastando de leite e mel de tempo patriarcal.

Nos finais do século XVII (1676-1679), é criada a paróquia de Piodão, com a igreja matriz dedicada a Nossa Senhora da Conceição, hoje situada no Largo do Cónego Manuel Fernandes Nogueira, que ali estabeleceu colégio de ensino público (século XVIII). Monumento singular de dimensão, pelo luminoso revestimento exterior, pela harmoniosa presença dos contrafortes redondos da fachada encimados de coruchéus, pela colocação lateral e recuada da forte torre sineira e do seu amplo interior com retábulos barrocos, a sua presença quase parece necessária ao equilíbrio da aldeia. Há ainda a capela de São Pedro, no largo deste nome, e a capela das almas, junto ao cemitério. Depois há fontes, que águas abundantes há sempre.

A Fonte dos Algares é modesta, com o seu arco ogival feito de xisto. Já fora do povoado, mais no alto fica uma eira comunitária que lembra agruras e confortos de camponeses, que ali faziam as malhas do seu pão. O que mais impressiona em Piodão é este casario levantado como escultura, é esta simbiose com a montanha de xisto e de floresta, são estas casas de miudinho xisto tão sabiamente colocado que durará talvez por mil anos. Homens e animais quase convivem no tempo, uns em baixo, outros em cima, no pequeno resguardo forrado de castanho o o lume se acendia em lareiras fundas de bancos corridos. Maravilhosa é essa cenografia de janelas, às vezes de guilhotina, cujas molduras e grossas torsas de castanho como as duas portas sempre se pintaram de azul, cor de céu ressaltando contra o branco que rasga a escuridão do xisto e o ilumina como a tela de pintura feita obra-prima.
Bem-aventurados os homens que deste modo celebraram a natureza.