Pode a Comida Levar à Demência?

Os ratinhos de Suzanne de la Monte estão desorientados e confusos. Percorrendo um labirinto aquático circular – um teste típico de memória, - tinham-se esquecido do caminho para a plataforma de segurança submersa.    Um olhar mais atento aos seus cérebros mostra danos devastadores. As zonas associadas à memória estão cheias de placas cor-de-rosa, como se fossem rochas numa parede de escalada, enquanto muitos neurónios, a abarrotar com uma proteína tóxica, entram em colapso e agonizam, à beira da morte.    Estas alterações são as principais características da doença de Alzheimer, mas surgem em circunstâncias surpreendentes. Suzanne de la Monte, neuropatologista na Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, tratou os ratinhos com um medicamento para a diabetes que interferia com a forma como os cérebros reagiam à insulina.    A hormona é famosa por controlar os níveis de açúcar no sangue, mas também desempenha um papel importante na sinalização do cérebro. E os resultados de investigações como as que Suzanne de la Monte tem levado a cabo têm conduzido os investigadores a questionar-se sobre o facto de a doença de Alzheimer poder ser, por vezes, uma versão da diabetes que atinge o cérebro. Se estiverem corretos, as implicações são profundamente preocupantes: podemos estar a envenenar os nossos cérebros de cada vez que mastigamos e engolimos hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes.    Este é o nosso cérebro com insulina  Durante mais de um século, os cientistas atribuíram a doença às placas beta-amiloides que se acumulam no cérebro dos doentes de Alzheimer. Os beta-amiloides são-fragmentos de uma proteína maior que ajuda a formar as membranas das células cerebrais. Também se pensa que cumprem funções importantes, tais como combater micróbios, transportar colesterol e regular alguns genes.    O que leva a proteína a libertar fragmentos tóxicos que se aglomeram em placas de Alzheimer é um mistério, mas, se as novas investigações estiverem certas, uma doença como a diabetes pode ser um gatilho.    Até há pouco tempo, a insulina era considerada um regulador do açúcar no sangue, transmitindo aos músculos, ao fígado e às células de gordura o sinal para extrair o açúcar do sangue e para o usar como energia ou para o guardar como gordura. Atualmente, sabemos que a hormona é uma verdadeira multitarefa: no cérebro, ajuda os neurónios a pegar na glicose e a regular os neurotransmissores que são fundamentais para a memória e aprendizagem. Também auxilia a plasticidade - que é o processo pelo qual os neurónios estabelecem novas conexões. É também importante para a função dos vasos sanguíneos, que levam ao cérebro oxigénio e glicose.    Em suma: reduzindo o nível de insulina no cérebro, prejudica-se automaticamente a cognição. A memória espacial, em particular, parece sofrer quando se bloqueia a absorção de insulina no hipocampo. Inversamente, o aumento da insulina parece melhorar o seu funcionamento.    Como se Desenvolve a «Diabetes Cerebral»  Quando as pessoas consomem ali- mentos ricos em gorduras e açúcar, os seus níveis de insulina sobem repetidas vezes. Os músculos, o fígado e as células de gordura deixam de responder à hormona e não «varrem» a glicose e a gordura do sangue. Por consequência, o pâncreas faz «horas extraordinárias» para criar mais insulina para controlar a glicose, e os níveis das duas moléculas aumentam muitíssimo. A teoria: estes níveis de insulina constantemente elevados também sobrecarregam o cérebro, que se torna menos sensível à insulina, prejudicando a capacidade de pensar e de formar memórias, antes de levar a danos neurológicos permanentes.