Quando eles ganham asas

 

Por Dina Isabel

Locutora e Diretora da Rádio Sim

 

«Ganhar asas», «sair do ninho», «largar as saias da mãe»… são tudo expressões que dizem o mesmo: os nossos filhos estão a ficar crescidos.

Passamos a vida a ansiar por esse momento, o momento em que se tornam independentes, em que já não precisam do nosso cuidado e atenção constantes. Aquele momento em que vamos ter tempo para pensar mais em nós. Então, porque é que, quando ele chega, nos sentimos vazios, angustiados, no limite, um pouco inúteis?

Este ano, pela primeira vez, fui de férias sem conseguir reunir toda a tribo. E aquele instante, o instante em que arranquei com o carro e lhes acenei com as frases expectáveis: Portem-se bem. Se precisarem de alguma coisa, liguem logo… esse instante doeu como nunca pensei. Disse muitas vezes em tom de brincadeira que não me lembrava de um dia em que tivesse tomado uma decisão livre. Uma decisão em que não tivesse em conta o impacto que teria junto das pessoas que me são próximas: os meus pais, o meu marido, os meus filhos.

Estou a perceber neste momento que isso de ser «livre» tem que se lhe diga. Isso de ser «livre» traz-nos um novo conhecimento de nós próprios e da forma como nos relacionamos com o mundo.

Pensando bem, quem me mandou a mim preencher tanto do meu espaço em torno nas necessidades das minhas crianças? Agora vou ter de arranjar preenchimento para este novo eu que tem pela frente um espaço vazio que antes estava atulhado – como um pufe que perdeu parte da esferovite e que precisa de acomodar um novo enchimento. 

Se fazia diferente, agora que olho para trás? Nem pensar! Não há nada mais compensador que o tempo
despendido para os tornar homens e mulheres bons e justos.

Não sei se resultou. Acredito que sim. Mas fiz o meu melhor, e esse nunca é demais.