Quando o cinema aprendeu a falar

 

A 27 de Outubro de 1927 estreou o filme O Cantor de Jazz. Nesse dia o mundo do cinema ainda não imaginava a grande revolução que estava a chegar. 

 

MÁRIO AUGUSTO

A fábrica de sonhos de Hollywood empregava na altura mais de 50 mil profissionais que produziam uma boa parte dos filmes que se viam em todo o mundo. As estrelas do mudo ganhavam milhões mas, em menos de dois anos, o sonho passou a pesadelo. A maioria das vedetas desse tempo viveu o drama da mudança e muitas desapareceriam, esquecidas e abandonadas pelos estúdios, onde já só queriam produzir os sonoros e as estrelas falavam mal. 

Os filmes sonoros, ou os talkies, como lhes chamavam os americanos, chegaram como um verdadeiro terramoto que arrasou a carreira de muitos atores e atrizes devido à sua dificuldade de adaptação às novas técnicas, em particular a incapacidade para decorarem textos e os interpretarem, e algumas dessas estrelas foram logo esquecidas.

Eram os novos tem
pos que implicavam
outro tipo de represen
tação, menos empol
gada perante a câmara; 
foi o caso de John Gil
bert (considerado um
galãs do cinema mudo), que chegou a receber das suas fãs mais de 2 mil cartas por dia e ficou conhecido como grande herói romântico e amante de Greta Garbo e Marlene Dietrich. Os espectadores imaginavamlhe uma voz completamente diferente da que realmente tinha e o ator caiu em desgraça. Morreu ainda novo de ataque cardíaco, em 1936, alcoólico e na bancarrota. Um retrato notável dessas vedetas abandonadas seria levado ao cinema por Billy Wilder em 1950, no filme Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses). Uma antiga rainha do cinema mudo protagoniza uma história bizarra de loucura e paixão, vivendo o saudosismo da glória perdida nos tempos áureos do início de Hollywood. Gloria Swanson, consagrada atriz do mudo, desenvolve neste filme um retrato cruel, mas subtil, da indústria do cinema, mostrando um lado mais negro e desesperado de Hollywood.

A própria Gloria Swanson (atriz que chegou a viver largas temporadas em Sintra, onde possuía uma casa em Almoçageme) também tinha quase desaparecido na transição para o sonoro. Algumas das suas palavras, ao interpretar Norma Desmond (a personagem de O Crepúsculo dos Deuses), eram amargas e pareciam despertar os velhos fantasmas: «Ainda sou uma grande estrela, os filmes é que ficaram pequenos. Em tempos o cinema tinha os olhos do mundo inteiro mas isso não lhes chegava, também quiseram ter os ouvidos. Então abriram as bocarras e começaram a falar sem parar...»

Chaplin foi dos raros casos que conseguiu manter a popularidade, recusando durante muito tempo os diálogos nas suas produções. Realizou o seu primeiro filme sonoro, O Grande Ditador, em 1940, treze anos depois da estreia de O Cantor de Jazz. Nessa altura referiu numa entrevista: «Podeis dizer que eu detesto o sonoro. Vem dar cabo da mais antiga arte do mundo, a arte da pantomima.

Esses filmes aniquilam a grande beleza do silêncio.» Era o silêncio das imagens que os mais fundamentalistas defendiam como «uma magia poética própria do cinema. O diálogo mata a poesia», diziam eles.

Os estúdios ainda tentaram recuperar algumas das suas figuras mais consagradas ao lançarem uma campanha com o slogan: «Oiça as estrelas falarem». Eram cenas exibidas antes da projeção dos filmes, sequências sonoras com as caras mais conhecidas que até então eram mudas e exageradamente expressivas na representação. Ao revelarem a voz muitas delas surpreendiam a plateia,que chegava a reagir com sonoras gargalhadas. Quase da noite para o dia, toda uma geração de nomes bem conhecidos do cinema seria afastada do ecrã. Poucos sobreviveram ao som – Greta Garbo, com a sua voz grave, foi uma das que conseguiu fazer a transição. Para o filme Anna Christie os estúdios MGM fizeram uma grande campanha com o slogan «Garbo Fala» e a sua voz convenceu o novo público.

A necessidade de inovar

O cinema norteamericano naqueles anos 20 estava a atravessar uma crise grave. As receitas de bilheteira baixaram drasticamente, o prestígio de muitas estrelas diminuiu com grandes escândalos e na imprensa surgiram críticas recorrentes à opulência e à extravagante vida de Hollywood.

Os estúdios, num aparente beco sem saída, perceberam
que era preciso evoluir,
mas os gestores dos estúdios, sempre muito conservadores, pare
ciam não saber como
dar a volta ao pro
blema. Essa «moder
nice» do som, se bem
que interessante, era
talvez uma moda pas
sageira, defendiam al
guns, para quem o bom
cinema era silencioso.
Os grandes estúdios,
todos – ou quase todos
 - recusavam a novidade
tecnológica, até porque
essa opção representava um investimento elevado para criar soluções técnicas adequadas ao registo e reprodução dos diálogos.

Em meados de 1926 chegou a Hollywood a notícia de que nos laboratórios das duas maiores empresas de eletricidade dos Estados Unidos – a Western Electric e a General Electric – os engenheiros tinham conseguido, finalmente, sincronizar o som com a imagem, isto após quase dez anos de experiências e estudos. A notícia foi pouco valorizada e as primeiras abordagens aos magnatas dos estúdios até correram mal, com alguns sinais de rejeição. Apenas na Warner Brothers decidiram arriscar. Um dos responsáveis viria mais tarde a confessar que só aceitaram a solução proposta porque não tinham mesmo outra alternativa. Os estúdios estavam numa situação financeira muito difícil depois de alguns fracassos de público e estrelas bastante caras, um quadro de gestão tão negro que uma das hipóteses era declararem falência e fecharem portas.

Na irmandade Warner nem todos acreditavam na importância desse passo gigante. Harry Warner votou de vencido e terá dito na reunião onde a decisão final foi tomada: «Não percebo quem poderá estar interessado em ouvir esses atores a falarem.»

A ideia inicial era usar o som para passar a música, os ambientes e efeitos sonoros. De início, a voz não era para registar.

Sem alternativa, os Warner arriscaram com cautela e discrição. Quando foram abordados para experimentar o novo sistema, denominado «Vitaphone» e que era a mais fiável de todas as experiências feitas até então, (....)

(...)

 * LEIA O ARTIGO INTEGRAL NA REVISTA SELECÇÕES DE OUTUBRO 2018 AQUI