Questões Fumegantes

 

Os cigarros eletrónicos são mesmo seguros? E até que ponto não estarão a criar uma nova geração de dependentes de nicotina? 

 

Susannah Hickling 

A apenas um minuto a pé do liceu, no movimentado centro de La Seyne-sur-Mer, no sul de França, uma loja de cigarros eletrónicos, toda iluminada, atrai os clientes. Um néon promove ofertas especiais, enquanto monitores coloridos mostram uma parafernália de artigos para os cigarros eletrónicos, como se de joias se tratasse. E há sabores para todos os gostos – incluindo morango fresco, mirtilo, cereja e pastilha elástica. 

 

A publicidade exposta na montra é reconfortante: o relatório de um estudo mostra que os cigarros eletrónicos ajudaram as pessoas a parar de fumar, há testemunhos daqueles que o conseguiram e há mesmo um grupo antitabaco que deu a sua bênção a esta nova alternativa aos cigarros reais. 

 

Esta é apenas uma das cinco lojas semelhantes que abriram recentemente nesta cidade de 60 mil almas, refletindo a crescente popularidade dos e-cigarros, não apenas em França mas por toda a Europa. No ano passado, estima-se que o mercado europeu tenha valido entre 400 e 500 milhões de euros, com sete milhões de utilizadores regulares.

A Associação de Comércio e Indústria do Cigarro Eletrónico (ECITA, na sigla em inglês) declara que a indústria global está a aumentar 20% a 30% a cada mês.

Um cigarro eletrónico é um dispositivo concebido para imitar o ato de fumar. Os primeiros e-cigarros foram designados por cigalikes, porque se assemelhavam aos convencionais cigarros de tabaco – e por essa razão se tornaram populares.

Os chamados cigalikes evoluíram para uma segunda geração, de porte mais pequeno, como a gama eGo. Estes, por vezes, parecem-se com canetas coloridas, são mais rentáveis e permitem ao fumador misturar sabores e ajustar a dose de nicotina. Os modelos mais recentes e de luxo – conhecidos como «vaporizadores pessoais avançados » – vêm em muitas formas e tamanhos, com vários recursos e configurações adicionais.

Cada cigarro eletrónico tem três componentes básicos: uma bateria, um atomizador e um cartucho de e- -líquido. Este contém propilenoglicol (utilizado em produtos tão díspares quanto medicamentos e líquidos para evitar a congelação em aviões) ou, por vezes, glicerina, bem como aromatizantes e, na maioria dos casos, nicotina, o químico que torna os cigarros viciantes.

Um cigarro eletrónico pode ter também uma luz LED numa das extremidades. Pode funcionar manualmente ou automaticamente. Alguns são descartáveis, mas a maioria é recarregável. O princípio é o mesmo: quando se inala, o atomizador aquece o e-líquido e emite um vapor que se sente na parte de trás da garganta, dando uma sensação semelhante à de um cigarro convencional – ao ato, chama-se «vaporizar ».

Originalmente publicitado como uma ajuda para quem quisesse deixar os cigarros tradicionais, o ato de vaporizar tornou-se, por direito próprio, uma escolha em si mesma. Desenvolveu- se na Europa toda uma subcultura relacionada com o tema. Há na Internet animados fóruns dedicados ao que parece ser considerado por muitos um hobby. Os seus membros discutem qual o melhor equipamento a usar e mesmo como fazer, em casa, os e-líquidos, utilizando propilenoglicol comprado na farmácia.

 

A ciência ainda não determinou totalmente a segurança dos cigarros eletrónicos. São indiscutivelmente melhores do que os cigarros reais, que contêm centenas de substâncias tóxicas, e são uma bênção para quem quer deixar o tabaco.

«Comigo funcionou lindamente», diz uma cliente, ao falar na Internet sobre a sua experiência. «Comprei o meu eGo original e um líquido com sabor a Marlboro forte. Na garganta, tem-se exatamente a mesma sensação de um tabaco forte, sem todos aqueles venenos.»

Mas há boas razões para uma pessoa se preocupar.

Um estudo feito pela Universidade de Atenas sobre o uso a curto prazo (bem como as conversas sobre o ato de vaporizar na Internet) lança sinais de preocupação sobre a saúde, como dificuldades respiratórias e irritação na boca e na garganta. Sabe-se que a nicotina causa ansiedade e aumenta a tensão arterial. Há também cada vez mais evidências de que danifica os vasos sanguíneos e as células do coração, aumentando o risco de ataques cardíacos e derrames.

Ninguém sabe com exatidão o quanto o ato de vaporizar pode ser potencialmente perigoso. A maioria dos cigarros eletrónicos e dos ingredientes dos e-líquidos é feita na China, mas ainda não existe obrigatoriedade de controlos de qualidade. A segurança de muitas das substâncias tóxicas que se formam quando o e-líquido é aquecido ainda não foi devidamente investigada.

«As emissões de vapor de um cigarro eletrónico não são apenas compostas por vapor de água», explica o Dr. Phillip Gardiner, especialista em nicotina da Universidade da Califórnia. «São uma nova fonte de compostos orgânicos voláteis, nicotina e metais pesados. Os perigos para a saúde associados a este nível de exposição ainda não foram determinados.»

«Tal como acontece com os cigarros convencionais, precisamos de um acompanhamento de muitos, muitos milhares de pessoas durante décadas antes de poder declarar que os cigarros eletrónicos são – ou não – seguros», resume a Dr.ª Charlotta Pisinger, especialista em saúde pública do Centro de Pesquisa para a Prevenção e Saúde do Hospital de Glostrup, perto de Copenhaga. «Os fumadores de cigarros convencionais também não notam, ou quase não notam, qualquer efeito secundário nocivo – os danos na saúde acumulam-se e a doença acontece anos mais tarde.»

 

O MAIS PERTURBADOR é o facto de os cigarros eletrónicos serem publicitados de uma forma que os torna atrativos aos jovens. Os anúncios mostram-nos como algo cool, sexy e saudável, como acontecia na antiga promoção aos cigarros convencionais, antes de a ciência provar que eram responsáveis, direta ou indiretamente, por matar quase metade dos fumadores.

Celebridades que influenciam os jovens, como Johnny Depp, Leonardo DiCaprio ou a cantora Katy Perry, já foram fotografados com um e-cigarro na mão. A marca E-Lites conseguiu um negócio de colocação de produto no vídeo da música «Hard Out Here», da cantora pop britânica Lily Allen. Acrescente os sabores interessantes que agradam aos mais novos e o resultado é um perigo real de criar uma nova geração de viciados em nicotina.

Mesmo as crianças mais novas podem ser atraídas pelos cigarros eletrónicos. Elizabeth Baker, uma mãe britânica de Cardigan, em Gales, usava-os para deixar de fumar. Mas ficou horrorizada quando os seus dois filhos, de 11 e 14 anos, começaram a mostrar interesse nos cigarros eletrónicos. «Sempre foram veementemente antitabaco e sabem o quanto me custa deixar o vício, mas agora perguntam- -me se podem experimentar os meus e-cigarros.»

Impedidos de fumar porque conhecem os riscos dos cigarros convencionais, os jovens europeus podem involuntariamente candidatar-se a uma série de eventuais problemas de saúde no futuro, em consequência dos cigarros eletrónicos. Ou podem vir a fumar tabaco convencional, uma vez viciados na nicotina contida na variante eletrónica.

«A nicotina é muitíssimo viciante – tão viciante quanto a heroína», resume o médico de clínica geral e saúde pública Peter English. 

 

ALGUNS ESPECIALISTAS EM SAÚDE também se preocupam com o facto de as tabaqueiras, que compraram as marcas de cigarros eletrónicos e os desenvolvem, os estarem a usar como isco.

 

«Com cigarros eletrónicos, conseguem-se imagens que são semelhantes às do ato de fumar e se podem inserir em vídeos para adolescentes, por exemplo, ou em filmes. Nos Globos de Ouro, vê-se gente a fumar e-cigarros e isso está a voltar a normalizar a imagem do fumador», explica Martin McKee, professor de Saúde Pública na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. O Professor Gerard Hastings, do Centro para a Investigação e Controlo do Tabaco da Universidade de Stirling, concorda. «Fizemos, no ano passado, uma auditoria a todo o marketing feito no Reino Unido aos e- -cigarros», conta. «É como um regresso aos anos de 1960, quando a publicidade ao tabaco era ainda muito livre e facilmente disponível, com o mesmo tipo de imagens que sublinham um bom estilo de vida, na moda, muito cool. Há o patrocínio de eventos desportivos, a identificação com celebridades, vídeos pop. Todas estas coisas que a indústria tabaqueira usou o mais que pôde no passado estão agora a regressar com os cigarros eletrónicos.»

«Os cigarros eletrónicos são um bom produto para ajudar os fumadores a deixar o vício», afiança Bertrand Dautzenberg, professor de Pneumologia no Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris, e presidente do Gabinete Francês para a Prevenção do Tabagismo. «Mas são maus para quem não fuma, e especialmente para os jovens que começam a fumar um produto chamado “cigarro”, que produz “fumo” e que contém nicotina. »

O que os faz experimentar? «Os jovens são curiosos», explica a Dr.ª Charlotta Pisinger. «São quem estabelece a tendência e os que a adotam mais cedo. São atraídos por novidades e gostam de experimentar.»

Os estudos demonstram que é precisamente isso que os jovens europeus estão a fazer. Um inquérito polaco a 20 mil estudantes do secundário e universitários mostra que um em cada cinco já os experimentou. Uma investigação francesa que envolveu mais de três mil parisienses descobriu que dois em cada três adolescentes dos 12 aos 14 anos que já tinham experimentado cigarros eletrónicos nunca tinham fumado tabaco convencional, confirmando assim que os e-cigarros representam um caminho direto para a dependência da nicotina.

As Selecções do Reader’s Digest elaboraram o seu próprio questionário, aplicado a estudantes suecos entre os 16 e os 18 anos. Da amostra, dois em cada cinco já tinham experimentado um cigarro eletrónico. Cinco por cento são consumidores regulares de e-cigarros com nicotina. As razões? Gostam do sabor e do facto de poderem fumar em locais onde fumar cigarros é proibido.

Por exemplo, Carl, de 16 anos, não acende um cigarro frente aos pais, que não fazem ideia de que o filho fuma. Mas o estudante de Estocolmo consegue ter a sua dose de nicotina mesmo em casa, porque dá «uns bafos» no e-cigarro. «É prático», explica. «Não deita cheiro, sabe bem e pode-se fumar dentro de casa.» O jovem admite que isso significa que o seu consumo de nicotina aumentou. «Fumo cigarros eletrónicos em casa e fumo cigarros na rua.»

A vivência de Carl corrobora dados de outra pesquisa, que envolveu 76 mil adolescentes da Coreia do Sul. O estudo mostra que quatro em cada cinco fumadores de cigarros eletrónicos afirmaram fumar também tabaco convencional. Os que tentaram deixar de fumar tinham mais tendência para usar os cigarros eletrónicos, mas tinham menos probabilidade de deixar de fumar tabaco.

Os que usavam o dispositivo eletrónico acabavam por fumar mais. «Assim, os fumadores começam a usar os cigarros eletrónicos para deixar de fumar mas, na verdade, os e-cigarros acabam por ser um complemento ao tabaco, por exemplo, em locais onde é proibido fumar», resume a Dr.ª Pisinger.

Também há sinais de que os cigarros eletrónicos podem converter um não-fumador. Aos 28 anos, David Rous, de Praga, nunca tinha fumado um cigarro na vida. A namorada convenceu-o a experimentar um cigarro eletrónico dos dela. Uma semana depois, David deixou de os usar – trocou-os por tabaco.

Agora com 30 anos, o gerente de negócios fuma entre 10 e 15 cigarros por dia e está viciado. Se se arrepende do dia em que tocou num cigarro eletrónico? «Não posso dizer que me arrependo, porque gosto do sabor do tabaco e estou sempre a desejar o próximo cigarro», confessa. 

 

A União Europeia quer controlar a revolução dos e-cigarros e está atualmente a debater nova legislação que vai impor avisos explícitos, interditar a publicidade e dar espaço à proibição de e-cigarros recarregáveis, a ser acionada sempre que três Estados-membros retirem um produto do mercado por justificados motivos de segurança.

Os líquidos de enchimento que contenham mais de 20 mg de nicotina poderão ser classificados como medicamento, sendo disponibilizados apenas a quem quiser deixar de fumar. No entanto, os Estados-membros são também livres de classificar os líquidos mais fracos como medicamento. Alguns países, como a Áustria, já o fazem, enquanto outros, como a Noruega, simplesmente proibiram a venda de recargas com nicotina. Por outro lado, a Bélgica proibiu o ato de fumar cigarros eletrónicos em espaços públicos, incluindo restaurantes e cafés. As autoridades do Reino Unido pedem que seja proibida a venda de e-cigarros a menores de 18 anos e podem regulamentá-los como medicamentos, ainda que não antes de 2016. E uma brecha no código da publicidade britânico, que baniu, desde 1965, os anúncios televisivos a cigarros, permitiu à British American Tobacco anunciar online e na televisão os seus cigarros eletrónicos Vype.

Já foram anunciadas várias interdições por parte de autoridades locais e corporativas. Há companhias de caminho de ferro que proíbem a utilização de e-cigarros nos comboios. O presidente da Câmara de St. Lô, no norte de França, determinou que é proibido fumar cigarros eletrónicos em todos os edifícios públicos da cidade.

Depois de receber queixas de alguns alunos, a Universidade de Reims Champagne-Ardennes também impede a sua utilização: «Estava fora de questão expor quem não fuma cigarros ou e-cigarros ao fumo ou ao vapor», resume o reitor na universidade, Gilles Baillat, que aceita, no entanto, que o e-cigarro seja considerado atualmente menos nocivo do que o tabaco.

 

A proibição pura e simples recolhe poucos apoios. Iria impedir que os fumadores tivessem acesso a uma forma conveniente e popular de deixar o tabaco. E proibir a venda a menores de 18 anos poderia ser contraproducente, ao conferir aos cigarros eletrónicos a aura de fruto proibido.

Não obstante, há especialistas que reclamam regras mais restritivas. Charlotta Pisinger acredita que preços dissuasores e proibição de venda a menores, bem como a classificação como produto médico, com vendas limitadas a farmácias, são medidas que podem ser eficazes.

Esses passos são fundamentais porque, como diz o Professor Bertrand Dautzenberg, «os cigarros eletrónicos são tóxicos, viciantes e não são para jovens».