Saber e Lazer depois dos 50

 

As universidades seniores são uma das grandes instituições que combatem a solidão e o isolamento de muitos milhares de idosos. Dezoito anos depois da sua fundação têm 50 mil alunos e 6 mil professores voluntários.

MÁRIO COSTA

 

«ESTOU NA UNIVERSIDADE SÉNIOR desde 2011. Vim para me distrair, para sair de casa, para estar com outras pessoas mas também para aprender», diz Alice Carvalho, de 73 anos, utente da universidade sénior de Almeirim (USAL). Reformada, Alice frequenta as várias disciplinas que são disponibilizadas, embora haja algumas de que gosta mais: «Gosto muito das aulas de hidroginástica e das aulas de cavaquinho, estou agora a aprender. E também das aulas de zumba, gosto muito de zumba», diz, a rir.

Alice Carvalho é uma das 120 pessoas que frequentam a USAL, uma das 338 universidades seniores existentes em Portugal e que disponibilizam atividades para um total de 50 mil pessoas, apoiadas por um corpo de 6 mil professores voluntários.

Nascido em França em 1976 com o nome de Universidade da Terceira Idade, o projeto de ocupação dos tempos livres dos idosos depressa se espalhou pela Europa: «Existem dois modelos de universidades seniores, o francês e o inglês. No modelo francês o funcionamento das universidades é mais formal e está obrigatoriamente ligado a universidades de ensino superior existentes, acabando por ser mais um departamento dessas mesmas universidades. No modelo inglês as universidades funcionam por iniciativa de grupos informais dentro da comunidade e foi esse modelo que adotámos em Portugal, embora com algumas alterações», explica Luís Jacob, presidente da direção da RUTIS – Associação Rede Universidades da Terceira Idade.

O movimento das universidades para seniores só chegou a Portugal em 1979 com a criação da Universidade Internacional da Terceira Idade. No entanto, só em 2001, com a criação da primeira universidade sénior em Almeirim, é que a ideia começa a fazer caminho, levando à instalação de mais projetos: «Em 2001, no primeiro encontro nacional, estavam apenas cinco ou seis universidades. Em 2003, no segundo encontro, já eram quinze universidades, e foi nesse encontro que se decidiu criar a RUTIS para apoiar as universidades já existentes e ajudar quem pretendesse criar uma universidade», explica Luís Jacob à Selecções. Contudo, a grande explosão na criação de universidades seniores ocorreu em 2005, quando o então Presidente da República, Jorge Sampaio, realizou uma presidência aberta sobre o envelhecimento ativo: «Essa iniciativa lançou o tema na sociedade e as pessoas ficaram despertas para o problema. Ao mesmo tempo começava-se a viver a crise que atingiu o setor bancário e dos seguros que levou muitas pessoas a irem para casa com reformas antecipadas. De repente, essas pessoas viram-se em casa sem nada para fazer e com capacidade para fazer muita coisa. Começaram então a integrar os projetos já existentes, tanto como alunos ou professores, mas também a criar novas universidades seniores. Para nós foi muito bom porque representou a entrada de massa crítica, que não tínhamos, e que foi uma mais-valia para os projetos», admite Luís Jacob.

Embora tenha sido essa massa crítica a dar o empurrão definitivo à instalação das universidade seniores, estes projetos não são elitistas. São transversais à sociedade e, na esmagadora maioria da vezes, um espelho da comunidade onde estão inseridas: «Nós aceitamos toda a gente que queira participar e temos todos os estratos sociais, há de tudo. Em termos de formação académica, a maioria dos alunos tem entre o 5º e o 10º ano e a maior parte entre os 60 e 75 anos. Quanto à caraterização por género, cerca de 75% são mulheres reformadas ou domésticas. E em muitos locais são um espelho da própria comunidade. Por exemplo, nas zonas interiores a maioria dos utentes tem apenas a antiga quarta classe. Estamos a falar de um meio mais rural, por comparação com Espinho ou Entroncamento, onde a maioria dos alunos são licenciados», explica Luís Jacob. Em média, cada uma das 338 universidades seniores conta com 120 a 150 alunos. Celeste Calmeiro, de 82 anos, é uma alunas da USAL, que começou a frequentar há cinco anos. Reformada do setor hoteleiro, adora as aulas de História, Informática e Hidroginástica, mas também gosta de jogar futebol! Isso mesmo. Leu bem. Futebol. E só lamenta ter-se lesionado: «Nós participámos no torneio do “futebol a andar” mas, infelizmente, acabei por me lesionar. Mesmo assim ajudei a evitar dois golos contra a nossa equipa», diz, a rir, à Selecções.

A par das disciplinas lecionadas nas várias universidades, os alunos também dispõem de várias atividades paralelas, desde os passeios temáticos a tunas, festivais de teatro, festivais de música ou o já famoso projecto «Walking Futebol», ou futebol a andar, que este ano teve doze equipas e para o ano vai contar com vinte: «É um projeto fantástico em parceria com a fundação Benfica, para promover a inscrição de mais homens nas universidades mas que, curiosamente, também cativou as mulheres e foi um tremendo sucesso, com a final a decorrer num dos campos de treino junto ao estádio do Benfica. Basicamente são equipas de futebol mistas, sem guarda-redes para que ninguém se lesione ao atirar para o chão, e joga-se a andar para não haver correrias que possam provocar lesões graves e não pode haver jogadas acima do nível da cintura. Este ano já temos vinte equipas inscritas», diz Luís Jacob.

O modelo português de universidades seniores revelou-se eficaz e até está a ser «exportado» para outros países, nomeadamente o Brasil e alguns países do Leste europeu, apesar de enfrentar alguns obstáculos: «O nosso modelo assenta no voluntariado dos professores, que se dispõem a despender duas horas do seu tempo semanal para a universidade. Mas nos países de Leste é exatamente esta questão que cria algumas barreiras», explica Luís Jacob.

Embora estejam todas ligadas pela rede da RUTIS, as universidades seniores são entidades juridicamente independentes e autónomas, nomeadamente na definição das disciplinas que disponibilizam aos alunos. «Nas universidades seniores temos dois grandes grupos: aqueles para quem a universidade é uma segunda casa porque é a única maneira de socializarem, de terem companhia e estarem com outras pessoas, e aqueles que vêm para aprender mais alguma coisa. E aí oferecemos algumas disciplinas como História, Informática, Saúde, Inglês, Artes e Cidadania, mas depois cada universidade tem liberdade para proporcionar outras matérias. Por exemplo, a Universidade do Machico, na Madeira, ensina a andar de bicicleta porque houve quem manifestasse esse interesse. E as coisas têm evoluído. Se há uns anos as aulas de Informática eram para aprender a mexer nos PC e no Word, hoje querem saber mexer nos smartphones, editar fotos e fazer selfies», revela o presidente da RUTIS. Esta associação, com o estatuto de IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social –, é membro de diversas redes nacionais e internacionais e é a única instituição nacional com acordo com o Estado para a promoção do envelhecimento ativo, sendo globalmente autossustentável. Os alunos pagam, em média, 12 euros mensais de propina e as atividades extra, como os passeios, são pagos à parte. E nem a crise que se viveu desde 2012 levou a uma diminuição dos inscritos: «Não houve diminuição, mas reparámos que muitas pessoas deixaram de participar em algumas atividades extra e outras faltaram muito porque durante o dia tinham de ficar em casa a tomar conta dos netos porque os filhos não conseguiam suportar a despesa com a creche ou os infantários», revela Luís Jacob.

No entanto, o certo é que frequentar uma universidade sénior traz benefícios para a saúde dos alunos e dos professores: «Há estudos que demonstram que 35 a 40% dos seniores/idosos sofrem de alguma forma de depressão. Nós temos dados que entre os alunos das universidades seniores esses valores são de apenas 5%. Por outro lado, os seniores que frequentam as universidades têm sete vezes menos probabilidades de estarem deprimidos quando comparados com aqueles que não frequentam e tomam menos 30% de medicação diária. Ao mesmo tempo, os voluntários sentem-se sete vezes mais felizes ao estarem disponíveis para participarem no projeto. Tudo se resume a sair de casa para vencer a solidão e manter uma vida ativa, como diz João Feijão, de 77 anos, aluno da USAL: «É preciso vencer o sofá e sair para conviver com outras pessoas, manter a cabeça ativa e aprender alguma coisa.»