Salvar os salvadores

 

Por dentro da ousada operação internacional para trazer em segurança os famosos Capacetes Brancos da Síria.


Sally Armstrong
Retratos fotográficos de Peter Bregg

 

Estava escuro como breu do lado sírio da fronteira e tudo iluminado do lado israelita quando teve início um salvamento dramático. Eles chegaram da escuridão nos montes Golã – os famosos Capacetes Brancos sírios –, os bancários e barbeiros e cidadãos comuns conhecidos por todo o mundo pela sua coragem. Chegaram, exaustos e assustados, caminhando com as famílias pelas encostas cobertas de erva da Síria, na direção da fronteira proibida com Israel.

Ao longo dos sete anos de guerra civil síria, estes homens e mulheres da Força Civil de Defesa da Síria enfrentaram bombardeamentos e ataques químicos para salvarem mais de 114 mil cidadãos que ousavam opor-se ao Presidente Bashar al-Assad. Agora, apontados como alvos de tortura e morte às mãos do regime, tinham de ser salvos.

No outono de 2012, o governo de Bashar al-Assad começou a atacar aldeias, vilas e cidades que eram contra o regime. A razão: qualquer oposição ao seu domínio autocrático era um ato de terrorismo. Retirou todos os serviços de ambulância, bombeiros e salvamento das áreas que não estavam sob controlo governamental, deixando os cidadãos indefesos. Quando as bombas caíram não havia ninguém para apagar os fogos ou ajudar as pessoas presas nos escombros. E quando os ataques terminavam não haviam ninguém que ligasse a eletricidade, restabelecesse os serviços de água ou reparasse as pontes.
Foi então que grupos de sírios comuns, primeiro nas cidades de Aleppo e Idlib e mais tarde nas áreas controladas pelos rebeldes, se uniram para darem uma resposta.

Depois de receberem formação da Mayday Rescue, uma fundação do Reino Unido sem fins lucrativos a operar na Jordânia e com fundos do Canadá, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Japão e Holanda, o que começou como Força Civil de Defesa Síria transformou-se em 2014 num movimento com 4200 voluntários. Trabalhavam em cerca de 150 cidades, vilas e aldeias rebeldes. Como usavam capacetes brancos das obras quando acorriam aos salvamentos, começaram a chamar-lhes Capacetes Brancos.
Jihad Mohameed, de 51 anos, um antigo gerente de contas num banco em Daraa, lembra a noite de janeiro de 2013, quando se tornou um Capacete Branco. «A nossa vizinhança foi atingida por bombas. Uma mulher estava ferida e a chorar. Ela tinha a certeza de que a sua bebé estava morta.» Mahameed e os amigos começaram a escavar no entulho. «Encontrámos a bebé coberta de pó e sentada num canto do edifício, com ar de quem não sabia o que tinha acontecido.» Mahameed aninhou-a nos braços e a criança agarrou-se a ele até que conseguiu devolvê-la à mãe.

Farouq Habib, de 37 anos, é diretor da unidade de apoio dos Capacetes Brancos e faz a ligação entre o grupo e a Mayday Rescue. Antes do banho de sangue pelas forças de Assad terem deixado quase 18 mil mortos pelo país, trabalhava na banca de investimento em Homs. Habib viu a casa destruída e a família deslocada.
Tal como Mahameed, Habib foi detido, encarcerado e torturado durante meses pelo regime. Tal como Mahameed, não desistiu. Pelo contrário, fala de salvamentos. «Quando as bombas explodem algumas pessoas correm para fugir. Outras correm para ajudar.»
Armados de macas em vez de armas, os Capacetes Brancos tornaram-se heróis. Também se tornaram o inimigo público de Bashar Al-Assad, em parte porque mantinham as pessoas vivas apesar dos bombardeamentos mas também porque prenderam câmaras aos capacetes para gravarem os ataques químicos e bombardeamentos, juntando provas destes crimes de guerra.
Em retaliação, à medida que as zonas caíam para o regime, foi oferecida uma amnistia a todos menos aos Capacetes Brancos. «Foram separados, tirados dos autocarros e colocados em instalações de detenção do regime», diz James Le Mesurier, fundador da Mayday Rescue. «Foram torturados, aterrorizados e obrigados a fazerem confissões em vídeo alegando que tinham sido responsáveis por cometerem atrocidades.»
Também foram submetidos a operações de «toque duplo». O regime bombardeava uma zona e, quando os Capacetes Brancos iam para lá, um segundo bombardeamento tinha as equipas de salvamento como alvo. Depois da queda das zonas detidas pelos rebeldes no sul em junho de 2018, foi dito aos residentes que tinham de preencher impressos de reconciliação, jurar fidelidade a Assad e identificar terroristas, valas comuns e Capacetes Brancos. Os socorristas temiam ser presos, torturados e desaparecerem. Com 255 dos seus já mortos e mais de 700 feridos, as suas vidas corriam riscos extraordinários.

A operação de salvamento foi dirigida por pessoas em campo, como a enviada especial canadiana Robin Wettlaufer. Baseada em Istambul, trabalhou com os Capacetes Brancos –
organizando fundos, treino e apoio – há mais de quatro anos. A 3 de julho de 2018, Ra’ed Saleh, o líder dos Capacetes Brancos, encontrou-se com Wettlaufer e perguntou: «Há alguma coisa que o Canadá possa fazer para ajudar?» O regime avançava mais depressa do que o esperado, a sua gente estava em apuros. Os homens e mulheres que eram alvos tinham apenas semanas, talvez dias, para escaparem.
Wettlaufer enviou um relatório urgente para os Negócios Estrangeiros do Canadá, afirmando que havia um risco real de os Capacetes Brancos serem detidos e mortos. A resposta à sua mensagem foi rápida. Sim, há a responsabilidade de ajudar.
Na cimeira de ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO em Bruxelas, a 11 de julho, a ministra canadiana, Chrysta Freeland, fez um apelo emotivo aos ministros dos Negócios Estrangeiros reunidos. «Temos de fazer algo», disse. «Não podemos deixar os Capacetes Brancos para trás. Temos uma obrigação moral para com estas pessoas.»
Se fosse alcançado um acordo, tinha de incluir realojamento. O Reino Unido, Alemanha e França responderam afirmativamente ao apelo de Freeland. Embora o encontro de Bruxelas tivesse galvanizado os diplomatas, políticos e organizações de auxílio, o tempo estava a esgotar-se.

Os Capacetes Brancos ameaçados estavam em fuga, escondendo as suas identidades, confiando em desconhecidos para obterem ajuda clandestina e manterem-se em contacto com a Mayday Rescue através de mensagens de SMS e WhatsApp codificadas.
Por esta altura, o exército em marcha de Assad tinha fechado a fronteira com a Jordânia, deixando os montes Golã como único ponto de travessia disponível. Garantir a cooperação de Israel era imperativo, e a Jordânia tinha de aceitar receber os homens, mulheres e crianças salvos vindos de Israel, mesmo que por pouco tempo.
Como nota, a embaixadora do Canadá em Israel, Debora Lyons, referiu que «o governo e os militares israelitas colocam a vida humana acima da política e disseram: “Estamos aqui para ajudar os Capacetes Brancos e trabalharem com o resto da coligação para os fazer sair em segurança."» Os Capacetes Brancos podiam transitar pelos montes Golã para a Jordânia.
Agora era uma corrida contra o relógio.
A 19 de julho, a Mayday Rescue enviou aos Capacetes Brancos uma mensagem codificada: «Dirijam-se para a fronteira com Israel.» A instrução parecia contraintuitiva – Israel era uma fronteira inimiga. Mas era a única opção disponível. Os Capacetes Brancos sitiados começaram a deslocar-se a partir de dúzias de locais na direção dos montes Golã.
O plano era abrir o portão, receber os Capacetes Brancos, processá-los e carregá-los em autocarros que se dirigiam para a Jordânia. Representantes do governo jordano estavam lá para observarem a evacuação, assim como representantes da ONU. A Mayday Rescue tinha enviado os Capacetes Brancos Jihad Mahameed e Farouq Habib, cada um com um telefone de satélite para que os parceiros pudessem contactar durante a evacuação. Os dois homens conheciam em primeira mão o perigo que os Capacetes Bran­cos e as suas famílias corriam. Nessa noite, esperaram que a fronteira abrisse.

Em Amã, o nível de ansie­dade no escritório da May­day Rescue e na embaixada Canadiana em Telavive e no Ministério dos Negócios Es­trangeiros em Otava era pal­pável. Havia muita coisa que podia correr mal. Os militares do regime podiam aperceber­-se do salvamento ultrasse­creto, avançar para a fronteira e atacar. Assad podia pedir um ataque aéreo. Cidadão sírios que viviam perto podiam aproveitar a oportunidade para atravessarem a fronteira quando abrisse, forçando uma resposta mili­tar dos israelitas. O escritório da May­day Rescue estava cheio de enviados, embaixadores, funcionários de ONG e equipas para refugiados da ONU, to­dos à espera de notícias do salvamento. A sala funcionava a cigarros, café e ansiedade.

«A dado ponto perdemos o con­tacto com Habib e Mahameed, por isso o stress disparou», diz Nadera Al­-Sukkar da Mayday Rescue. «Também perdemos contacto com os Capacetes Brancos. A moral estava em queda. Es­távamos todos preocupados que não fosse acontecer, que fosse demasiado complicado, demasiado difícil.»

A Força de Defesa de Israel (FDI) tinha coordenado a hora e lugar onde os Capacetes Brancos atravessariam. Mesmo antes do pôr-do-sol, posiciona­ram-se com equipamento completo de combate, com as metralhadoras ao om­bro. Prepararam uma mesa onde cada evacuado seria identificado.

Então, pouco depois das 21h00 de 21 de julho, a FDI deu ordem para abrir o portão entre a Síria e Israel. Enquanto abria devagar para uma posição que ex­punha as colinas sírias, todos olharam para a escuridão. O major da FDI, Efi Ribner, chamou os Capacetes Brancos para avançarem em famílias – um grupo de cada vez. Se as pessoas apareciam sozinhas, eram abordadas como indi­víduos. O controlo era apertado.

Em Amã, os que esperavam ansio­samente por uma palavra receberam a chamada – uma hora mais tarde do que o esperado. Era Habib. Os Capacetes Brancos tinham começado a atravessar. «À medida que a noite avançou tornou­-se claro que aquilo podia funcionar», diz Wettlaufer. «Mas até sabermos que a última pessoa estava em segurança, não relaxei um segundo. Ninguém relaxou naquele centro de operações.»

A noite estava estranhamente silen­ciosa, com exceção de alguns disparos à distância. Os Capacetes Brancos avan­çaram para o portão.

Habib e Mahameed foram das pri­meiras caras conhecidas que os Capace­tes Brancos viram. «Quando a primeira família atravessou foi excecional», lem­bra Habib. «Eu tinha sentimentos confli­tuosos – tristeza por a família ser forçada a abandonar a sua terra, mas felicidade por os termos salvo.»

As famílias estavam num estado mi­serável – uns doentes, outros descal­ços. Uma mulher grávida tinha partido a perna, uma mãe perguntou a Habib se arranjava leite para a sua criança. Um homem suplicava a Habib que ne­gociasse um salvo-conduto para a sua mulher e filhos, deixados para trás. Ha­via um recém-nascido, que tinha che­gado ao mundo dois dias antes.

As famílias salvas correram para Mohameed, abraçando-o e fazendo perguntas, à procura de respostas. Ele abraçou-os mas não os encorajou a demorarem-se. «Só os queria em segu­rança no autocarro», diz.

Na fronteira, quando as famílias fa­ziam o controlo de segurança, eram levadam para autocarros onde cober­tores, alimentos, leite em pó para be­bés e água esperavam por elas. Assim que os dez autocarros ficaram cheios, partiram em comboio para a fronteira jordana. Eram 05h00 quando os últimos autocarros chegaram à Jordânia.

QUANDO Nadera Al-Sukkar se encon­trou com os Capacetes Brancos num lo­cal não revelado na Jordânia, percebeu a enormidade do que tinha sido conse­guido. Numa iniciativa exemplar, líderes de meia dúzia de países colocaram de lado os egos e divergências num ousado esforço conjunto para salvarem tantos Capacetes Brancos quantos foi possível.

Dos cerca 800 Capacetes Brancos, e respetivas famílias, que se esperava que fugissem, 422 atravessaram a fronteira nessa noite.

«O Canadá desempenhou um papel principal numa operação de salva­mento internacional absolutamente extraordinária que foi posta de pé num período frenético de três semanas», diz Le Mesurier.

Os salvadores tinham sido salvos.

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A jornalista Sally Armstrong e o foto­jornalista Peter Bregg viajaram para a Jordânia e Israel em agosto de 2018. Esta história é um esforço de cooperação en­tre as Selecções do Reader’s Digest e o The United Church Observer.