Seguindo os «Salgados»

 

Um estudo australiano sobre os crocodilos-de-água-salgada revelou alguns factos surpreendentes sobre estas criaturas temíveis

 

FRANZ LIDZ DE SMITHSONIAN MAGAZINE

 

O CROCODILO-DE-ÁGUA-SALGADA é um enorme, discreto e antiquíssimo animal que não esperaríamos pacificar com um pequeno toque amigável na cauda. Mas aqui está Daisy, um crocodilo fêmea de água salgada australiano de 5,2 metros numa margem relvada do rio Wenlock, tão plácida como um pequinês. Robert Irwin, filho do falecido naturalista Steve Irwin, afaga o terço inferior da sua ameaçadora anatomia. Felizmente, uma venda, fita adesiva e um açaimo de corda garantem a amigabilidade da relação.

 

A cauda serrilhada de Daisy sacode o rapaz agachado para a esquerda. «A pressão da mandíbula do croco­dilo é incrível – mais de 210 quilos por centímetro quadrado!», diz-me Robert. A cauda de Daisy sacode-o para a di­reita. «Admiro imenso a capacidade do crocodilo de matar apenas com os dentes. É espantosa!»

A irmã mais velha de Robert, Bindi, olha solicitamente. O seu sorriso trans­mite uma vivacidade desarmante. «Aqui está um animal que muitas pes­soas pensam que é apenas um monstro feio, estúpido e mau que mata pessoas. Isso não é verdade de todo!»

Bindi e Robert seguem as pegadas do seu pai Steve, o tempestuoso e vo­luntarioso naturalista, conhecido como «Crocodile Hunter». O número de Irwin – interações próximas e provocadoras com animais perigosos e interjeições de espanto («Crikey!») face à sua magnífica letalidade – tornou-o um fenómeno te­levisivo internacional. Os encontros de Irwin com animais mortíferos terminou em 2006, quando o espinho de uma raia lhe perfurou o coração durante filma­gens na Grande Barreira de Coral. Tinha 44 anos.

A manhã já vai alta em Wenlock e o odor de carne podre paira no ar. Uma carcaça de porco selvagem foi usada como isco na armadilha que apanhou Daisy. Era uma das 17 deixadas ao longo deste troço de 50 quilómetros de rio. O sol brilhante filtrado pelas árvo­res penetra na margem, onde Robert e Bindi, Terri (a mãe deles) e uma equipa de tratadores de animais do Australia Zoo, propriedade da família, integram um extraordinário estudo zoológico.

Desde há mais de uma década que os investigadores têm monitorizado o comportamento e a fisiologia dos cro­codilos-de-água-salgada em Queens­land, sobretudo na Reserva de Vida Sel­vagem Steve Irwin, de 133 500 hectares, criada pelo governo australiano em sua memória, na península do cabo York. As suas descobertas sobre os hábitos dos «salgados», capacidades de orienta­ção e vidas privadas levaram a repensar como vivem e como podemos coexistir com eles. Longe de serem animais se­dentários e solitários, com um macho a defender um território fixo, como se pensava, os «salgados» mostraram-se criaturas de grande mobilidade com hierarquias sociais complexas.

O projeto de investigação é lide­rado por Craig Franklin, um zoólogo da Universidade de Queensland, que apanhou, marcou e libertou inúmeros crocodilos. Os dados são recolhidos por eletrometria acústica, e por emissores de satélite que enviam informação para um laboratório de Brisbane, que segue os animais. O projeto é financiado pelo Zoo dos Irwin, por fundos federais e por doadores privados.

Hoje, um operador de câmara e um fotógrafo estão presentes para docu­mentar o trabalho no rio Wenlock para o site do Zoo. Enquanto Robert abraça a cauda de Daisy, Craig faz uma pequena incisão atrás da pata esquerda dianteira do crocodilo, insere um transmissor e fecha a ferida. «A pele é tão grossa que cosê-la é como tentar coser botas de cowboy», diz Bindi, uma presença per­manente nas viagens de campo de Craig desde o primeiro dia. Craig tira amos­tras de sangue e de tecidos, e, enquanto mede Daisy da cauda às narinas, Bindi escreve os números.

Quando a vendada Daisy solta um longo grunhido baixo, Bindi mostra um sorriso. «Os crocodilos são muito vocais, bastante inteligentes e imensa­mente capazes de amar», diz. «Quando uma fêmea adulta repousa a cabeça na barriga do seu companheiro, não há ou­tra forma de o descrever que não seja amor.»

Há algo insondável e pré-histórico no crocodilo. Alguns povos aborígenes caçam tradicionalmente crocodilos pela carne, mas a população dos animais permaneceu estável até ao fim da Se­gunda Guerra Mundial e até passarem a estar acessíveis as espingardas de alta potência. Caçadores comerciais e des­portivo de gatilho fácil chacinaram­-nos indiscriminadamente. Desde que receberam proteção na Austrália, no princípio dos anos 70 do século pas­sado, os seus números recuperaram e cresceram até aos 100 mil.

Das 23 espécies de crocodilos, duas habitam os rios, charcos e mangais dos trópicos australianos: os crocodilos-de­-água-doce-australianos, que são rela­tivamente inofensivos, e os maiores e bastante mais agressivos crocodilos-de­-água-salgada, que podem atingir mais de seis metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. Os territórios dos dois sobrepõem-se em parte.

Os de água salgada são caçadores efi­cientes com perto de 70 dentes encai­xados uns nos outros. Se um se parte há um por baixo para o substituir. Nu­merosos músculos servem para fechar a boca do animal, mas apenas alguns a abrem. Ao longo dos últimos 70 mi­lhões de anos, não mudou muita coisa no desenho evolutivo do crocodilo-de­-água-salgada. Este gigante arcossauro consegue ver bem de dia e de noite, e tem três pares de pálpebras, um deles para proteger a sua visão subaquática. Uma prega no fundo da boca impede a água de encher os pulmões.

Estes crocodilos esperam pelas suas presas com uma paciência letal – por vezes, ao longo de dias –, aprendendo os seus hábitos e horas de comer. O crocodilo esconde-se sob a superfície da água junto à margem, pronto a em­boscar outros animais, incluindo gado, javalis, cangurus e até outros crocodilos, quando vêm beber. Saltando e aboca­nhando, arrasta as presas maiores para águas mais fundas, onde as afoga. Exe­cutando uma rotação em saca-rolhas iniciada na cauda, o crocodilo torce até arrancar pedaços de carne.

Não é por acaso que lhes chamam comedores de homens. Em média, os crocodilos-de-água-salgada atacam e comem uma pessoa por ano na Aus­trália. Em 2014, mataram três pessoas, sendo a morte de uma quarta atribuída com grande probabilidade ao ataque de um «salgado».

 

O QUE É TALVEZ surpreendente é que Steve Irwin, embora controverso pelo seu exuberante método de abordar de perto a vida selvagem, tivesse discreta­mente formado equipa com cientistas sérios e conservacionistas para dar uma contribuição real para a história natural sistemática desta criatura enig­mática.

Irwin lutou com o seu primeiro cro­codilo quando tinha nove anos. O pai, um canalizador que abrira um pequeno parque de répteis na costa de Queens­land, ensinou-o a apanhar os crocodi­los-de-água-doce, e, depois, a arrastar para fora de água crocodilos-de-água­-salgada mais pequenos. Juntos realoja­ram crocodilos ameaçados por povoa-dos humanos no parque.

Irwin assumiu o negócio em 1991. No ano seguinte casou-se com Terri Raines, turista e reabilitadora de ani­mais selvagens de Eugene, no Oregon. As filmagens da sua lua de mel a captu­rar crocodilos tornaram-se o primeiro episódio de The Crocodile Hunter.

À medida que o programa ganhou popularidade, Steve e Terri expandi­ram o Australia Zoo, com mais de 1200 animais em 40 hectares. Conservacio­nistas apaixonados, Steve e Terri Irwin criaram uma fundação para proteger habitats e vida selvagem, criaram pro­gramas de salvamento e financiaram investigação científica de espécies ameaçadas. Compraram vastas áreas de terra na Austrália esperando torná­-las áreas protegidas e fizeram campa­nha contra o comércio ilegal de mar­fim e peles exóticas, e contra o abate de cangurus pelo governo australiano.

Em 2003, Craig Franklin conheceuSteve Irwin por acaso no Parque Nacional de Rinyirru (Lakefield), em Queensland. «Apesar de não ter edu­cação formal, Steve tinha todas as qua­lidades de um grande cientista. O seu intelecto era fenomenal, era motivado pela curiosidade e tinha uma lista in­findável de perguntas para as quais procurava respostas. O aguçado poder de observação de Steve mostrou não ter preço no nosso projeto de marcação de crocodilos.»

Em 2004, Craig e Steve uniram es­forços com os Parques de Queensland e os Serviços de Vida Selvagem, para lançar o primeiro estudo publicado de seguimento por satélite de croco­dilos selvagens. Dúzias de «salgados» foram equipados com transmissores de satélite que gravaram informações durante um ano ou mais. «A tecnologia permite-nos aceder aos dados sem per­turbarmos os crocodilos ou influenciar­mos o seu comportamento», diz Craig.

 

AO LONGO DOS ANOS, os investigado­res determinaram que os crocodilos­-de-água-salgada podem suster a res­piração durante perto de sete horas e mergulhar a mais de sete metros. As fêmeas inspecionam potenciais ni­nhos semanas antes de porem os ovos, e os machos dominantes maximizam o êxito reprodutivo. Os «salgados», sa­lienta Bindi, investem consideráveis cuidados parentais no crescimento dos seus jovens. A fêmea pode rolar cuida­dosamente ovos na boca para ajudar à sua eclosão. Quando os seus rebentos começam a chilrear, escava para os tirar do ninho e depois leva os seus meninos até à borda de água, e permanece junto deles durante vários meses.

 

OS HERPETOLOGISTAS há muito se interrogavam sobre como os «salga­dos» – notoriamente fracos nadadores de longa distância – habitavam tantas ilhas do Pacífico Sul separadas por vas­tas extensões de oceano. Mas os dados recolhidos por Craig e outros investiga­dores revelaram que durante viagens longas, os crocodilos seguem corren­tes de superfície, um pouco como os surfistas apanham ondas. A intrigante capacidade que os «salgados» têm de encontrar o caminho de volta para casa depois de serem deslocados, que Craig e os colegas documentaram em diver­sos estudos, continua a ser um enigma. Talvez «eles nadem em volta quando li­bertados e se realinhem com o seu am­biente original por navegação celeste ou sinais geomagnéticos», especula ele.

Tais descobertas mostram-se signifi­cativas, porque deslocar os «salgados» tem sido usado em Queensland para gerir potenciais riscos de segurança suscitados pelos animais. «A nossa ex­periência mostrou que a translocação era ineficaz e extremamente perigosa», diz Craig. Os residentes e turistas ti­nham a falsa sensação de que as águas estavam livres de crocodilos. O governo abandonou o programa em 2011.

Apesar de a caça de crocodilos-de­-água-salgada estar banida em Que­ensland, o estado estabeleceu «Zonas de Gestão de Crocodilos». Agentes privados em Queensland podem cap­turar, armadilhar ou arpoar «salgados» isolados nessas áreas e pô-los num zoológico, ou quinta de crocodilos ou, em alguns casos, submetê-los a eutaná­sia de forma não cruel.

Bindi considera o plano inconcebí­vel. «Os crocodilos têm uma importân­cia vital», diz. «São predadores do topo da cadeia, que regulam populações de outros organismos. Sem eles, o ecossis­tema inteiro colapsa.»

Concede que os crocodilos podem atacar e que por vezes atacam e matam pessoas. Mas quando os seres humanos são atacados, argumenta, é quase sem­pre porque agiram irresponsavelmente. Pescando com isco preso ao cinto, na­dando depois de escurecer, ignorando sinais de aviso, ou roubando-os como recordação.

«Somos nós que temos de aprender a viver com os crocodilos», diz Bindi. «Afinal, eles estavam cá primeiro.»