Terras de Bouro e o Gerês

Onde a Natureza encanta

As «Terras de Bouro» chegaram aos tempos modernos a denominar um concelho que, no passado, compreendia 17 freguesias

 

As «Terras de Bouro» chegaram aos tempos modernos a denominar um concelho que, no tempo do fiel Pinho Leal, compreendia 17 freguesias, todas com pequenas aldeias serranas, com insistentes lembranças castrejas e romanas. Grande parte do concelho é percorrido pela Geira, uma via romana que sobe a serra do Gerês, ligando Astorga a Braga. São ainda visíveis muitos marcos miliários e a ponte romana do Campo do Gerês.

É numa das suas freguesias – Vilar da Veiga – que estão as Termas do Gerês, já utilizadas na época romana. À fonte termal liga-se uma lenda que já encontrei adaptada a outras regiões portuguesas e galegas e que pode ter tido origem nos sermões pregados nas romarias dos santos que dão nome aos montes e lá têm a sua ermida e a sua devoção. Eis a lenda:

No tempo do imperador Trajano, governava estas terras o cônsul Caio Pôncio Atílio. O imperador chamou-o para a guerra, e a esposa ficou grávida, à espera de uma criança. Em vez de uma, pariu nove, o que era claro sinal ou de coito diabólico ou de muita gente junta. Preocu­pada com o que o marido poderia pensar quando voltasse a casa, chamou uma escrava chamada Sita, entregou-lhe a ninhada das recém-nascidas e mandou deitá-las no fundo de um precipício, de forma que nunca mais aparecessem. Mas a escrava já era cristã e, por isso, em vez de matar as crianças, foi entregá-las a um convento de freiras, onde todas se criaram no cristianismo. Anos mais tarde, o imperador ordenou uma perseguição aos cristãos em todo o Império. Todos tinham que ajoelhar diante da estátua imperial e prestar-lhe o culto devido aos deuses. As nove meninas foram a Braga, mas confessaram a fé em que viviam: o verdadeiro Deus não é o Imperador Trajano, mas Nosso Senhor Jesus Cristo. O cônsul Atílio quis cumprir a lei e chamou os algozes para as degolarem. Já os verdugos arrancavam as espadas das bainhas quando a escrava Sita se ajoelhou aos pés do cônsul: «Não as podeis matar! Todas nove são vossas filhas!» E contou ao cônsul a história das meninas. Caio Atílio deu então uma outra ordem: não seriam degoladas, mas ficariam a ferros por toda a vida nos cárceres do palácio do governador. E para lá as levaram já ao anoitecer.

Antes que clareasse a manhã do novo dia, desceram os anjos do céu, romperam os ferros e levaram-nas consigo. A cada uma deram um monte e no cimo dele se construiu uma ermida. Dessa maneira, nasceram as Ermidas das Santas Marinha, Marciana e Germona, Basílica, Quité­ria, Liberata, Genebra, Vitória e Eufémia. Todas deixaram no Mundo um luminoso sulco de milagres, mas no Gerês é Santa Eufémia a que mais importa lembrar. Descia do seu outeiro e andava pelas aldeias a visitar pobres e enfermos. No granito de um destes montes, estão ainda impressas as pegadas que lá deixou. Foi essa pista que levou lá os legionários romanos que andavam à procura das fugitivas. Prenderam-na e ali mesmo lhe quiseram dar a morte: deitaram-na para o fundo de um imenso precipício que havia ali perto. O corpo da santa foi rolando de pedra em pedra, mas ao chegar ao fundo a terra abriu-se como um berço carinhoso e voltou a fechar-se prodigiosamente. E é desde então que aí jorra uma fonte de água miraculosa capaz de aliviar dores e curar doenças. Assim começaram as Caldas do Gerês.

A versão histórica não é tão poética. Que os Romanos lá estiveram, provam-no os achados feitos junto à fonte. O primeiro estabelecimento termal permanente – tanques abertos no granito e pequenas celas no flanco da serra – data do século XVIII, tempo de D. João V, quan­do a medicina começou a encaminhar os doentes dos ossos e da pele para as estâncias termais. A pequena Ermida de Santa Eufémia foi então promovida a Capela Real. Sabemos da intervenção joanina pela solene inscrição da cornija: «Estas obras mandou fazer el-rei Nosso Senhor D. João V à custa do povo, sendo supe­rin­­­tendente delas o Dr. Gaspar Pimenta do Ave­lar, provedor da comarca de Guimarães, e pa­ra se fazer concorreu com muito zelo o Dr. Fran­­­cisco Pereira da Cruz, deputado do Santo Ofício, desembargador da Casa da Suplicação de Lisboa. Abril, 11 de MDCCXXXV.» Mas tudo isso foi arrasado para edificar as modernas estações de captação de águas em 1897.

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Pequeno excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva