TOMAR

Santuário histórico

Se em Portugal existe cidade que mereça a designação de santuário histórico é Tomar.

 

Não é ainda uma cidade-museu: chamar-lhe-ia antes um grande estaleiro que a História nos legou e que espera de nós a instalação de um museu, como a bela moldura espera o quadro. Mas é diferente ser museu ou santuário. O museu faz-se com velharias, regulamentos, directores e porteiros. Há até (e são cada vez mais) museus cheios de coisa nenhuma. Pelo contrário, o santuário não se decreta nem se fabrica porque é anterior a nós. É uma atmosfera mágica que parece cristalizada no tempo, um estado de alma, um magnetismo indefinível que se traduz em rituais, enigmas, presenças, valores plásticos que, naturalmente, uns captam, outros não. E, como todos os santuários, Tomar não é para todos. É só para quem a merece.

O passado é enigmático. 

Facto certo é que o primeiro rei de Portugal quis recompensar os Templários, que o ajudaram a conquistar Santarém aos Mouros, e para isso lhes deu a espiritualidade da vila de Santarém – isto é, todo o rendimento que a rica povoação ribatejana devia pagar no foro eclesiástico. O bispo de Lisboa protestou com boa razão: ninguém pode dar o que não lhe pertence. Ora, o eclesiástico de Santarém era da Igreja, e não do rei. O pleito arrastou-se com réplicas e tréplicas, mas o papa acabou por dar razão ao bispo de Lisboa, retirou Santarém à Ordem do Templo e deu-lhe o tal castro de Ceras.

A instalação começou pela edificação de Santa Maria, que depois se chamou do Olival. Ali tiveram os freires cavaleiros o seu primeiro assentamento. Santa Maria fixou à sua volta os colonos que – enquanto os cavaleiros (ou, às ordens deles, sob chicote, os artesãos mouros apanhados nas grandes correrias e obrigados para o resto da vida a trabalharem debaixo de ferros) iam fazendo construir a fortaleza e o templo – desbravavam as úberes várzeas do Nabão, arroteavam leiras até ao alto da serra de Santa Catarina e iam cobrindo o solo de grandes manchas de olival.

Ponto decisivo para o desenvolvimento de Tomar-vila foi a diligência dos Judeus. A comuna de Tomar teve importância. O infante D. Henrique protegeu-a. A sinagoga, que ainda hoje se pode visitar, foi construída talvez pelos mesmos mestres que fizeram em Ourém a cripta que serve de túmulo ao orgulhoso D. Afonso. Isto aponta para uma data anterior a 1460, isto é, ainda em tempo de vida do infante D. Henrique. A presença dos Judeus animou as pequenas indústrias (fabrico do papel, fiação de tecidos e fornos de vidro) e estimulou a comercialização do azeite. Ao contrário das outras povoações que foram cabeças de ordem, Tomar teve assim dois geradores de riqueza local: na colina, estava a casa do capítulo dos cavaleiros; na várzea, o concelho dos lavradores e a comuna dos Judeus.

O Templo transformou-se em Cristo, mas o facto de competir aos Templários fazerem a Guerra Santa no mar estabelece uma ligação directa entre Tomar e os Descobrimentos. O infante D. Henrique construiu em Tomar o seu paço. O rei D. Manuel, que se considerava espiritualmente neto do Navegador, fez de Tomar um tesouro do manuelino. D. João III continuou. Os Filipes elegeram o lugar como o mais glorioso cenário da sua vinda ao reino. Do século XII ao início do XVII, Tomar foi uma espécie de altar-mor da realidade mística do Portugal das Descobertas.

Com a secularização das ordens, o património construído era tão vasto e tão admirado que conseguiu resistir. O imenso edifício, com oito claustros, mirantes e cómodos que parecem não ter fim, serviu para tribunal, quartel, cadeia, celeiro, finanças, até para solar de um ministro talentoso e voraz, Costa Cabral, que justificava o título nobiliárquico de conde de Tomar por ter arrematado em hasta pública uma larga talhada da colina dos Templários. Mas até a essa apropriação privada Tomar resistiu. Todo o conjunto voltou a ser do Estado, isto é, dos Portugueses. Para quando estará reservada aos Portugueses a oportunidade de verem todo esse acervo de ruínas transformado num museu que nos dê o relato de quanto as ordens fizeram pela civilização?

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Pequeno excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva