Um diário de luta e cura

João da Silva é um sobrevivente. O cancro bateu-lhe à porta por três vezes, e levou-o a um inferno que durou três anos. Mas ele nunca deixou que a doença vencesse. A experiência deu origem a um livro.

 

MÁRIO COSTA

PEDRO SIMÕES (FOTOS)

 

TINHA TUDO para se considerar feliz e para se sentir bem na vida. Jovem, saudável, a trabalhar na área que sempre quis, João da Silva, jornalista, 37 anos, viu a sua vida ficar de pernas para o ar de um dia para o outro: foi-lhe diagnosticado um cancro nos testículos.

 

Era o início de um calvário de três longos e sofridos anos. Após o diag­nóstico, submeteu-se a uma cirurgia de remoção do tumor e fez quimiote­rapia. Mas a doença voltou passado pouco tempo. Voltou a fazer trata­mentos, e voltou a debelar a doença. E quando tudo parecia estar para trás das costas, o cancro regressou, e só foi dominado com um autotrans­plante de medula óssea.

Seis anos passados, João da Silva está clinicamente curado, e decidiu passar a livro a sua experiência.

O Sofrimento Pode Esperar é o re­lato diário de uma luta contra a do­ença, mas, acima de tudo, um relato de sobrevivência. E de força. Uma força que João da Silva não sabe onde foi buscar.

«Não sei de facto. Talvez à minha família e aos meus amigos. E talvez ao meu otimismo. Lembro-me de que as pessoas diziam que eu estava sempre a sorrir e sempre muito oti­mista. Com o passar dos anos, co­meço a achar que o riso, o sorriso e o otimismo são algumas das nossas melhores armas contra o infortúnio», diz às Selecções do Reader’s Digest.

Ao contrário de muitos outros do­entes oncológicos, João da Silva en­carou com relativa calma a notícia de que tinha um cancro, relativizando o facto. Uma reação algo atípica, talvez fruto desse permanente otimismo.

«Quando me disseram o diagnós­tico, não tive logo a noção do que estava a acontecer. Só depois, com o passar do tempo, e principalmente com os tratamentos, é que o diagnós­tico começou a pesar», admite.

No início do longo calvário, João da Silva não pensava que poderia ter um cancro.

«O cancro para mim era uma coisa distante, porque antigamente não se falava muito. Falava-se mais em do­ença prolongada. Ainda hoje há pes­soas que não dizem a palavra “can­cro”. Houve pessoas, até amigos de infância, que se afastaram de mim na altura em que tive cancro. A sensação com que fiquei foi que parecia uma coisa que se podia pegar ou conta­giar», lamenta.

O cancro continua a ser um tema tabu para muitas pessoas, provo­cando as mais variadas reações. Se houve amigos que pura e simples­mente se afastaram, outros houve que lhe disseram que não sabiam como lidar com ele e com a doença.

«Houve pessoas que me disseram que tinham muita dificuldade em li­dar com isto, em olhar para mim, em ver-me doente, não sabiam o que haviam de dizer», confessa.

Desde o início da sua luta contra a doença, João da Silva optou por ter uma atitude muito positiva e muito ativa em relação aos trata­mentos. Talvez por i sso, surpreendia muitas vezes quem o visitava no IPO – Ins­tituto Português de Oncologia –, com a sua forma de encarar a doença.

«Algumas pessoas disseram-me que fica­vam muito surpreen­didas quando iam vi­sitar-me. Sentiam que era importante irem lá dar-me força, e aca­bavam por sair de lá surpreendidos com a minha atitude. Não que eu fizesse algo diferente dos outros, nada disso, apenas tentava sorrir o mais possível e manter-me tranquilo e esperançoso em que tudo iria melhorar. E isso aconteceu por­que eu percebi que precisava de me sentir com energia para combater aquilo, não podia perder tempo a lamentar-me ou a ficar deprimido. Eu tentava não falar muito da doença. E notei que há uma curiosidade mór­bida por parte de algumas pessoas em saber pormenores. E há também um prazer mórbido por parte do pró­prio doente em falar da sua doença. Eu combati isso. Aliás, cheguei a pe­dir a um companheiro de luta que lá estava comigo que não me falasse da doença dele, pois sou uma pessoa sensível e não era ca­paz de ficar indife­rente. O que eu queria era ter conversas nor­mais que me levassem dali para fora, que me alheassem do que eu estava a passar. E que­ria canalizar a minha energia para comba­ter a doença, tentando ter uma vida o mais normal possível. Que­ria ler, escrever, trei­nar... Não podia gastar energia com preocu­pações.»

Muitos doentes on­cológicos garantem que manter uma atitude positiva e adotar alguns cuidados ajudam à eficácia dos tratamentos. João da Silva é a prova disso. Recusou-se desde o início a que o seu corpo fosse apenas um depósito de químicos, e decidiu que tinha de fazer mais por si mesmo. «Decidi começar a cuidar mais do meu corpo, torná-lo o mais saudável possível. Sempre que podia fazia exercício físico, deixei de comer carne e peixe e tornei-me vegetariano. E até deixei de comer açúcar. E acredito que aquilo que teve maior influência na minha sobrevivência foi conseguir que a mi­nha vida, durante esse período, se aproxi­masse o mais possível da vida que tinha an­tes», revela às Selecções.

Embora não tenha passado por uma fase de grande revolta, houve momentos ao longo dos três anos em que se foi abaixo, no­meadamente quando acontece a segunda recidiva e é con­frontado com a necessidade de fazer um autotransplante de medula óssea, o que obrigou a um longo período de isolamento. Mas, mesmo aí, conse­guia ir buscar força e energia. «Pas­sava o tempo a visuali­zar a vida fora das pare­des do IPO, sempre. Eu sabia que aquilo era uma coisa temporária. A partir de uma certa altura da doença pen­sei: “Isto não é para mim! Vou ultrapassar isto. Isto é um pro­cesso.” E comecei a vi­sualizar o que ia fazer quando saísse dali. E não era a longo prazo, era no ime­diato, eram coisas mais práticas. Vi­sualizava-me a treinar, a ter uma vida normal, a brincar com o meu filho. Há duas formas de levar a vida: ou nos agarramos ao que mais deseja­mos ou ao que mais tememos.»

 

IGUALMENTE FUNDAMENTAL no processo de cura foi a presença do filho, Joãozinho, que na altura do diagnóstico tinha apenas um ano e meio.

«Ele era muito pequeno, mas nunca lhe escondemos nada. Ele sempre soube que eu estava doente, ia visitar-me quando eu estava inter­nado, e sabe exatamente aquilo que tive. E acho que ele tem muito orgu­lho em mim», diz com um brilho nos olhos.

Depois de ter sobrevivido a três cancros, João da Silva mudou a sua atitude perante a vida. Ao contrário do que se podia pensar, diz-se menos tolerante com falsidade e mentira, ou com aqueles que o querem fazer per­der tempo ou desgastar-se com mi­nudências. E desiludiu-se. Com Deus: «Eu era católico, não prati­cante, e tinha a minha fé. Quando soube que estava doente pela pri­meira vez, rezei e pedi para Ele me curar. Mas quando a doença regres­sou, fiquei zangado. Zanguei-me com Deus e questionei-me sobre a razão de aquilo me estar a acontecer a mim, que nunca tinha feito mal a ninguém e que tinha um filho para criar. Era injusto. Então apaguei Deus da minha vida», confessa às Selec­ções.

 

Com o livro que escreveu, João da Silva tem como objetivo dar espe­rança a outras pessoas que possam estar a passar pelo mesmo que ele passou.

«Não sou nenhum herói, apenas relato a minha experiência, o meu exemplo. Nunca senti que estava a fazer uma coisa excecional. Estava apenas a lutar para continuar a vi­ver.»