UMA CADELA SOBREVIVENTE

 

A adorada cadela de Dave Schelske ficou imóvel, na pequena plataforma, a uma escorregadela do abismo.

 

ANITA BARTHOLOMEW

 

A CASA EM WEST LINN, a sul de Portland, no Oregon, estava silenciosa ao fim da manhã do dia de Natal do ano passado. Para Dave Schelske, de 46 anos, as Festas estavam terminadas. Tinha acabado de deixar os seus gémeos de 8 anos, Tristan e Lawson, na casa da mãe deles. Dave, um amante de atividades ao ar livre e fotógrafo profissional, decidiu focar a sua atenção – e a sua câmara – na beleza natural do Oregon, na companhia de Sandy, a sua cadela de três anos, mistura de Labrador e Leão da Rodésia.

 

Tendo preparado a trela retrátil que comprara para Sandy no Natal, o equipamento de fotografia e outros artigos essenciais, Dave abriu a porta da sua carrinha para que a sua enér­gica companheira pudesse entrar. Dirigiram-se para a garganta do rio Columbia, a menos de uma hora para norte.

Dave gostava de dizer que a sua fa­mília não escolhera Sandy no abrigo de animais, mas que fora ela a esco­lhê-los. Ele e os rapazes estavam sen­tados lado a lado na área de receção quando o cachorro amarelo de sete meses lhes foi apresentado. Num ins­tante, ela saltou e deitou-se ao colo dos três. Souberam imediatamente: este era o cão deles.

 

DAVE ENTROU NO ESTACIONA­MENTO do Eagle Creek Trail, um tri­lho de que Dave se lembrava pela sua queda de água a cerca de três quiló­metros do início.

Mas já tinha passado tanto tempo desde a última visita, que se esque­cera do impressionante precipício a ladear o estreito caminho. Talhado numa montanha, o trilho tinha uma parede de rocha à esquerda e, à di­reita, não tinha nada – só uma en­costa vertical que se estendia preci­pício abaixo até Eagle Creek. E a gar­ganta ficava mais funda quanto mais se avançava.

Dave tomou mentalmente nota para escolher um caminho diferente da próxima vez que trouxesse Sandy para um passeio. Mas a cadela estava habituada a caminhos difíceis e su­perfícies de rocha, e muitos outros caminhantes tinham os seus cães com eles. A nova trela de Sandy es­tendia-se até cerca de seis metros do carreto, e Dave apercebeu-se de que teria de manter a cadela muito perto e não deixar a trela esticar de todo, para deixar às outras pessoas espaço para passarem.

Por volta do meio-dia, o par su­biu por um trecho particularmente estreito, com apenas pouco mais de um metro em alguns lugares. Grossos cabos metálicos tinham sido presos à rocha para os caminhante se agarra­rem. A garganta tinha mais de 60 me­tros de profundidade.

Tinha chovido durante toda a ma­nhã. Para o olho do fotógrafo, o ne­voeiro a entrar pelas árvores e o cabo de aço que abraçava a superfície ro­chosa criavam uma composição inte­ressante. Dave atou a trela de Sandy a um tronco de árvore, tirou a câmara da mochila e começou a fotografar.

Uma vez satisfeito, começou a ca­minhar na direção de Sandy, que esperava pacientemente sentada. De repente, assustada com qualquer coisa, a cadela disparou a correr, com os seis metros de tela a desen­rolarem-se atrás dela. Dave começou a correr atrás da cadela e o fim da trela soltou-se do tronco. Chamou-a pelo nome, esperando que parasse. E assim aconteceu, por um momento. Então, claque, claque, claque, a pega de plástico da trela bateu nas rochas, assustando-a ainda mais.

«Sandy, espera!», gritou, mas ela correu até uma curva, desaparecendo da vista.

Quando Dave ouviu um sonoro la­tido, pensou que a coleira de Sandy se tivesse prendido em qualquer sítio, puxando-a. Ele depressa a acalmaria quando a apanhasse. Mas, segun­dos depois, quando passou a mesma curva, tudo o que encontrou foi uma trela partida no chão, contra uma ár­vore, na beira do penhasco.

O caminho onde encontrou as pe­ças percorria uma encosta íngreme, adequada apenas a cabras de monta­nha e escaladores experientes. Depois de seis metros, terminava numa fenda estreita e a borda era quase vertical. Não havia marcas de derrapagem ou unhas a indicar que ela tinha escor­regado pela encosta. Lá em baixo, o riacho rugia e contorcia-se por cima das rochas. Onde poderia ela estar?

Em pânico, Dave voltou a descer o caminho, perguntando a uma mulher que vinha a subir: «Viu passar um la­brador amarelo a correr?» A mulher disse que não. E também toda a gente que passou. Os outros caminhantes sugeriram ligar para as emergências, mas não havia rede ali em cima.

À medida que os minutos se trans­formaram numa hora, o seu receio cresceu. Se Sandy tivesse caído perto de onde ele encontrou a trela, não po­dia ter sobrevivido.

Voltou ao local onde ela tinha desa­parecido. Nada disto teria acontecido se ele tivesse uma trela mais forte e curta. O que iria dizer aos rapazes? Os filhos adoravam Sandy tanto como ele próprio.

De novo, David chamou insisten­temente o nome dela. Sabia que não haveria resposta, mas não podia pa­rar.

Duas mulheres de meia-idade que subiam o trilho, ouvindo os seus gritos angustiados, perguntaram o que tinha acontecido. Ele explicou e depois começou a subir o caminho principal, à procura de uma forma de descer. Dave abriu caminho pelo meio do mato, num trilho lateral im­provisado que descia o penhasco. Se­ria difícil e perigoso, mas ele era um escalador experiente. E era a única possibilidade de encontrar o corpo de Sandy.

Sem Dave saber, as duas mulheres desceram o trilho principal, encon­traram um ponto de acesso para che­gar ao rio e começaram a procurar. Dave depressa as encontrou e tentou desencorajá-las, receando que se ferissem. «Se querem ajudar, talvez possam ir até onde estava a trela», disse. Assim, teria um ponto de re­ferência enquanto procurava. Uma delas concordou e regressou, mas a amiga disse: «Eu vou ajudar.» E ficou.

 

NESTA TARDE DE NATAL, a bom­beira-paramédica Rene Pizzo estava no cinema com o marido quando o telefone tocou. A mensagem de texto da Equipa de Salvamento Técnico de Animais da Oregon Humane Society (OHSTAR) dizia que um cão tinha caído de um penhasco e pedia-lhe que consultasse o e-mail para mais pormenores. Rene era o membro mais antigo da equipa de voluntá­rios da OHSTAR, todos eles treinados para fazer salvamentos de caninos em condições difíceis.

Correndo para casa, vestiu roupas quentes, pegou no equipamento bá­sico – capacete, arnês, luvas, óculos de segurança, luz frontal – e dirigiu-se para a entrada do trilho. Entretanto, alguns dos seus colegas encontraram­-se na sede da organização em Port-land para recolher mais material de salvamento.

Este seria o terceiro naquele pe­nhasco, só em 2014. A visão canina não é tão boa como a humana. Além disso, a perceção de profundidade de um cão é má. Andar naquele trilho era muito mais perigoso para os cães do que para os donos.

 

MESMO ANTES DAS 5 DA TARDE, John Thoeni e a namorada, a veteri­nária Emily Amsler, estavam a sentar­-se para o jantar de Natal. As velas estavam acesas e o vinho servido, mas ainda por provar. Então, os seus telefones tocaram ao mesmo tempo. A refeição teria de esperar. A OHSTAR precisava deles em Eagle Creek.

No total, foram chamados oito vo­luntários para largar as festividades e salvar um cão que poderia já não ter esperança.

 

EM EAGLE CREEK, tendo descido durante uma hora através de vegeta­ção densa até ao rio, Dave e a compa­nheira procuraram por algum sinal de Sandy. O dia começava a escurecer e o ar a ficar mais frio. Sem lanternas, ficariam presos na garganta a noite toda se não voltassem imediata­mente. De coração pesado, regressa­ram, com Dave a abrir caminho. Que­ria acreditar que a sua cadela estaria, de alguma forma, à espera no carro, mas a esperança estava a desvanecer­-se.

Foi então que ouviu a mulher atrás de si a dizer algo estranho. «Ei, rapa­riga!»

O quê?

Ergueu o olhar, acompanhando o dela, mas não viu nada, apenas ar­bustos, rochedos e o penhasco.

Quase tinha medo de perguntar: «Ela está viva?»

A mulher acenou. «Está a olhar mesmo para mim.»

Dave trepou para cima de uns tron­cos e ali estava ela, talvez 20 metros acima, a abanar a cauda. Estava de pé. Isso era um bom sinal. Alívio e alegria tomaram conta dele.

«Vem cá, miúda. Vem, Sandy

Ela ganiu mas não se mexeu. Por que não vinha até ele?

À medida que subia para mais perto, percebeu o problema. Empo­leirada numa pequena plataforma perto do fundo de uma fenda e com a rocha nas suas costas, Sandy encon­trava-se encurralada. Estava rodeada de espaço aberto, mas demasiado longe de um local em que pudesse aterrar em segurança, arriscando um salto.

Dave não encontrou uma forma de transpor os cinco ou seis metros que o separavam da cadela. Precisava de algum equipamento da sua carri­nha. Descendo de novo, ele e a sua parceira conceberam um plano. Se prendessem uma corda a um tronco de árvore e ela a fosse soltando à me­dida que ele subisse, seria capaz de apanhar Sandy e tirá-la dali.

Entretanto, uma família que Dave encontrara antes tinha ligado para as emergências. Uma equipa de socorro vinha a caminho.

Assim que voltou à garganta car­regado de material, Dave percebeu que o seu plano não funcionaria. A sua ajudante estava exausta. A tre­mer, disse-lhe que o frio tinha feito as suas articulações ficarem presas. Mal podia mexer os dedos. Tinha de regressar.

Por esta altura, deveriam ser 5 da tarde. O céu cinzento-escuro de­pressa ficaria negro. Dave sentia-se derrotado. Então, a mulher que es­tava de vigia junto à trela gritou lá para baixo. O primeiro voluntário de salvamento animal tinha chegado.

Tudo o que ele podia fazer era esperar e acalmar a aterrorizada cadela. «Vai correr bem. Estou mesmo aqui.»

 

POR VOLTA DAS 7 DA TARDE, os últimos membros da OHSTAR che­garam a Eagle Creek e começaram a subir o trilho. As nuvens obscureciam qualquer luar que pudesse iluminar­-lhes o caminho. Felizmente, a mu­lher que tinha estado a ajudar Dave e tinha avistado Sandy primeiro, encontrou-os no trilho e indicou­-lhes a localização de Dave, 60 metros abaixo, no desfiladeiro.

 

SANDY ESTAVA PRESA 50 metros abaixo, o equivalente a um edifício de 15 andares. O pequeno espaço em que estava não era plano, mas convexo – ela não se podia sentar ou virar-se sem arriscar uma queda para o fundo da garganta. O canídeo estava de pé, como uma estátua, há diversas horas.

Enquanto os voluntários baixavam âncoras, arneses, cordas, luzes e ou­tro material, Dave apontou a lanterna para a plataforma, para que John Thoeni – que iria fazer rapel pelo pe­nhasco até Sandy – soubesse onde aterrar.

Era preciso extremo cuidado. Se ele descesse diretamente sobre a ca­dela, detritos poderiam magoá-la ou assustá-la, fazendo-a saltar dali para o abismo. Assim que John chegasse ao lado de Sandy, uma corda dupla com sistema de roldana seria usada para içar homem e cadela de novo para cima. Rene Pizzo era chefe de equipa. Emily Amsler desempenhava as funções de veterinária e fotógrafa.

Bruce Wyse, um montanhista, es­tava encarregado de encontrar ár­vores que correspondessem aos pa­râmetros para ancorar as cordas e roldanas, mas não havia muitas ade­quadas à função. Ou as raízes eram demasiado curtas, ou os troncos não estavam à distância certa da berma. Mais duas horas passaram até estar tudo pronto para começar o salvamento.

 

DAVE NÃO PODIA VER nada disto do ponto onde estava, em baixo, junto ao ribeiro. Focou-se em assegurar Sandy de que estava ainda ali, e mantinha a sua lanterna apontada para ela. Por esta altura, já tinha gasto diversas ba­terias. O frio atravessava-lhe a roupa, mas pelo menos ele podia saltar um pouco para se manter quente. Sandy não se podia mexer.

 

ÀS 21h36, John começou a descer em rapel, com equipamento de proteção completo e carregando uma mochila cheia. Tinham-se passado mais de oito horas desde que Sandy caíra.

Recordou a si mesmo que, do ponto de vista da cadela, ele podia estar até a descer de um OVNI. Ela estava presa e assustada. Mantendo a voz calma e regular, John foi-lhe falando com doçura, enquanto a equipa o baixava. «Linda menina, Sandy… Es­tou aí num minuto…»

A equipa esperava baixá-lo mesmo à esquerda da cadela, mas a parede do penhasco curvou subitamente para dentro e deixou-o pendurado a cerca de um metro da rocha, sem se poder agarrar.

Teria de subir mais três metros até conseguir chegar a Sandy.

Metendo mãos e pés em qualquer reentrância que lhe pudesse dar im­pulso, John trepou pela encosta de ro­cha, escorregadia devido à chuva, até que ficou ao nível da cadela. Com um braço na plataforma para se apoiar, meteu a mão na mochila para tirar uma guloseima. Tão imóvel quanto o próprio penhasco, Sandy pareceu mal notar a oferta.

Manobrando cuidadosamente, John prendeu uma trela à coleira dela. Depois, um açaime, para pre­venir. Finalmente envolveu-a com um arnês de salvação ligado, como o dele, ao sistema de cordas e roldanas. Estavam prontos.

Por rádio, pediu à equipa em cima para puxar. Abraçando a cadela con­tra o peito para a proteger de ramos e rochas enquanto subiam, John e Sandy elevaram-se 15, 30, 50 metros no ar. Chegaram ao cimo às 10h23 da noite.

 

O TRABALHO DE JOHN estava ter­minado. Era altura de Emily avaliar Sandy.

Espantosamente, tinha poucos fe­rimentos visíveis – só uma unha de uma das patas da frente arrancada e as almofadas das patas bastante ras­padas. Mas ela mal se mexia ou se­quer gania. Sandy estava em choque.

A equipa começou a arrumar o material, felicitando-se mutuamente por um salvamento bem-sucedido. Tinham recebido o melhor presente de Natal possível, uma vez que o fim podia ter sido muito diferente.

Os voluntários estavam prontos a descer o trilho quando Sandy final­mente se animou. Depressa desco­briam porquê. Dave tinha surgido na berma do caminho, tendo subido na escuridão com apenas a pequena luz da sua lanterna para o guiar. Sandy correu para o dono, que a abraçou, aliviado. Estava tão grato por nin­guém se ter magoado.

Dave sorriu à sua cadela e depois às pessoas que tinham abandonado os seus planos de Festas para a salvar. «Gostava de os abraçar a todos», disse.