Uma lição de bondade

 

Na noite em que a autora perde a paciência com a mãe por causa da sua demência, o amor de uma neta une-as.

 

Leslie Kendall Dye de THE NEW YORK TIMES

 

São 20h00 de uma fria noite de primavera. O nosso apar­tamento foi atingido por um ciclone – o trabalho de uma criança jovem e enérgica. Cada pe­daço de mobília está enfeitado com correntes de papel, tesouras e fita­-cola, plasticina, pilhas de bolotas e prendinhas.

Estou muito cansada esta noite. Ando de muletas há sete semanas, a recuperar de uma cirurgia à anca, e tento limpar a casa sem sucesso.

O telefone toca – pela sexta vez em menos de uma hora. Sabemos quem é.

Quando a minha mãe tinha 68 anos, uma hemorragia cerebral re­clamou-lhe o cérebro mas não a vida. Acordou de um coma seria­mente diminuída. A hemorragia ar­rasou instantaneamente a paisagem da sua mente. A demência em breve construiu uma casa de espelhos gótica com distorções onde antes houve uma arquitetura coerente. Ela estava retorcida por dentro há uma década, com pouco mais para fazer do que sentir angústia psíquica.

Ela é perseguida pela paranoia – pensa que foi expulsa da sua resi­dência assistida (não é verdade), que as filhas não a visitam há meses (foi há poucos dias), que o seu amigo Jimmy nunca mais a quer ver (ele liga-lhe e visita-a semanalmente).

Sempre que telefona, jogo co­migo mesma um jogo chamado «Até que ponto consegues ser uma boa pessoa?» Já ganhei cinco ron­das do jogo esta noite. Estou prestes a perder.

Ela não faz ideia de que hoje já re­petiu um milhão de vezes o que vai dizer, e ontem outro milhão. Não faz ideia de que fui operada nem se lembra do nome da neta. Não tem noção da maior parte do passado e vagueia no presente. Está só.

Atiro a minha fúria ao alvo mais fácil. A minha mãe. A exata vítima deste horror do acaso.

 «Mamã!», grito. «Não estás a ser expulsa da tua casa! E nós fomos vi­sitar-te há dois dias! (Talvez tenham sido quatro dias mas de qualquer maneira ela não se lembra.) «Mãe, tens de acreditar em mim e, se não acreditas, não podemos falar mais. Está tudo bem!»

Silêncio. Então: «Só liguei para di­zer olá.»

Sinto o golpe do punhal da agres­são passiva, que é a única arma que funciona no seu arsenal mental. A minha mãe continua, tendo es­quecido que gritei. (Por vezes lem­bra-se mesmo, desta vez tive sorte.)

«Mas também estou preocupada com uma coisa, tens um minuto?»

«Não mãe, não tenho. Não posso com isto outra vez!»

«Porque estás a gritar?»

Estou a gritar porque não és a minha mãe. És uma substituta mal-amanhada que não pode aju­dar-me a cuidar da minha filha ou ser avó, ou mesmo lembrar-se de me perguntar como correu o dia. Estou a gritar porque já te tirei da borda deste precipício cinco vezes esta noite, e estou a gritar porque me lem­bras de tudo o que temo: envelhecer, doença, fragilidade, má sorte, perda, impermanência… Basta escolher – se mete medo, tu lembras-me disso!

Deixo-me cair no sofá, sabendo que a minha filha está a ser teste­munha. Ela ouve-me a repreender a minha mãe, a perder a paciência, a declarar que alguém que amo é um estorvo. Não falhei apenas a ser boa pessoa. Falhei a ser um bom exem­plo para a minha filha.

Fico estendida no sofá, derrotada.

«Posso falar com a avó Ellie?»

A minha filha de 5 anos estende a mão para o telefone sem fio.

Sem palavras, passo-lho.

«Olá, avó!»

Ouço a minha mãe a exclamar pelo auscultador.

«Queridinha! Como estás? Foste à escola hoje?»

Que bruxaria é esta? Tudo o que ela disse foi «Olá, avó», e a minha mãe parece uma pessoa comple­tamente atenta ao ritmo de um dia normal.

«Sim, avó, e hoje foi dia de parti­lha e eu trouxe as minha braceletes de Mulher Maravilha.»

«Podes colocar em alta voz?», sus­surrei à minha filha.

 A minha filha obedece, e do te­lefone chega uma cascata de boa disposição. A minha mãe diz-lhe quanto a ama e que a sua voz é adorável.

Então: «Espero ver-te em breve?» A minha mãe faz o seu pedido de uma promessa de companhia. Agora, ouço a sua voz de um modo diferente. Não estou cansada ou zangada. Estou amolecida por den­tro ao ver a minha menina do infan­tário a lidar com a sua frágil avó com tanta mestria.

«Avó, vamos levar-te ao carrossel este fim de semana. Eu vou na rã e tu vais no cavalo ao meu lado.»

«Oh, isso é maravilhoso, querida!»

Estou espantada com a conversa delas.

«Diz-me, foste à escola hoje?»

«Sim, avó, fui à escola e foi dia de partilha. Levei as minhas braceletes de Mulher Maravilha.»

«Levaste? Que maravilha!»

«Queres que te cante uma canção? Eu sei três canções de “Annie”.»

E então a minha filha canta.

A afiada brisa da noite atravessa a janela, e a confusão no nosso apar­tamento pousa à minha volta como uma manta velha e macia. Ouço a minha filha a cantar para a avó, cuidando dela com uma paciência requintada.

Passo demasiado tempo a desejar que ela tivesse uma avó «a sério», a desejar que ela conhecesse a mãe «a sério». Neste momento, vejo que ela tem na verdade uma avó a sério, com quem tem uma relação a sério. Não é aquela que desejei mas para ela é normal – cuidar de um ente querido faz parte da vida.

Quando desligam, depois de mui­tos barulhos de beijos, digo à minha filha que é hora do banho. Ela pro­testa selvaticamente, mas eu faço correr a água de qualquer maneira. Eu ainda sou a mamã, e ela ainda tem 5 anos.

E, no entanto, hoje ensinou-me a atender o telefone como uma pessoa crescida.