UMA VIAGEM DE COMBOIO DE ENCANTAR

 

Entre a bordo desta viagem de contos de fadas, numa jornada luxuosa através do antigo Império Otomano. 

 

Maggie Shipstead 

DE Travel + Leisure

 

Os comboios le­vam-nos para lá da fachada de um lo­cal e mostram vis­lumbres fugazes e aleatórios da vida comum, umas vezes bela e outras agreste. Em 2019, ao viajar de Istambul para Budapeste num luxuoso comboio privado cha­mado Golden Eagle Danube Express, pude ver aldeias medievais tiradas de histórias de encantar e blocos residenciais comunistas sombrios, subúrbios industriais cobertos de fumo e campos de girassóis sem fim. Quem nos via passar filmava as carruagens azul e bege, restauradas ao estilo de um glamoroso comboio­-cama fin de siècle.

Por vezes, a elegância revivalista do comboio fez-me sentir como um visitante de outra época; outras, a paisagem deu-me a impressão de ter viajado para outro tempo. Uma ocasião, algures na Roménia, junto a uma estrada pejada de Trabants da Guerra Fria e dos mais recentes carros de luxo alemães, avistei um homem a conduzir uma carroça por um caminho de terra. Uma pessoa agora, pensei, é outra pessoa então.

Durante quatro dias o comboio transportou-me, juntamente com os meus 17 companheiros de viagem, pela Turquia, Bulgária, Roménia e Hungria. E eis o que me deixou es­pantada: cada paisagem que vimos, cada centímetro de caminho-de­-ferro sobre o qual chocalhávamos, ficava dentro das fronteiras daquele que outrora foi o Império Otomano. Durante mais de seiscentos anos, os sultões governaram um vasto territó­rio multinacional e multilinguístico, e o nosso itinerário levou-nos do seu coração até ao extremo norte.

O comboio parava todos os dias para uma visita a pé e os Otoma­nos surgiam constantemente na descrição dos guias. A fortaleza re­construída que visitámos em Veliko Tarnovo, na Bulgária? Uma defesa contra os turcos otomanos até 1393, quando a incendiaram e conquista­ram. Os banhos públicos de Buda­peste? São um legado otomano. As torres de defesa da cidadela transil­vana do século xii em Sighisoara? Adivinhem contra quem foram erigidas.

 

Onde poderia ter começado a viagem a não ser em Istambul? Todos descrevem a cidade – a capital otomana de 1453 até ao des­mantelamento do império em 1922 – como espantosa. Mas por alguma razão nunca senti vontade de a vi­sitar. No entanto, assim que o carro que me levava do aeroporto passou por uma colina e a labiríntica metró­pole revelou-se lá em baixo, com mi­naretes que se erguem como agulhas de catos, com o estreito do Bósforo a refletir o crepúsculo vermelho ro­sado, percebi. Espantosa. 

Antes de mais, é o tamanho: Istam­bul alberga mais de 15 milhões de pessoas. É um grandioso amontoado de telhados de telha vermelha, vas­tos passeios junto à água e labirinto atrás de labirinto de becos bizanti­nos estreitos. Depois a sua geogra­fia emocionante, que atravessa da Europa à Ásia com o Bósforo pelo meio, um local com vantagens estra­tégicas e comerciais tão irresistível que é habitado continuamente há 3000 anos. Fortificações, monumen­tos e achados arqueológicos surgem praticamente sempre que se enterra uma pá na terra.

Depois de termos passado a noite no hotel, eu e os meus companhei­ros de viagem do Danube Express fomos fazer uma visita guiada a pé. As qualidades essenciais do Impé­rio Otomano, como a imensidão, a longevidade e a complexidade, fo­ram perfeitamente ilustradas na nossa primeira paragem, o palácio Topkapi. Serviu de residência dos sultões desde meados do século xv até meados do século xix, e foi sede do governo de uma gigantesca ex­tensão de território, que se estendia da atual Argélia até ao Iraque, e da Croácia à Arábia Saudita.

As estruturas do Topkapi são com­pridas, baixas e têm uma decoração sóbria – pelo menos quando se pensa na extrema riqueza dos sultões. Ro­deiam jardins que agora são vulgares mas que já foram paradisíacos, onde abundavam as túlipas e as rosas, os pavões e as gazelas. O nosso guia des­taca as colunas contrastantes do lado de fora da câmara do Conselho Impe­rial, feitas de granitos e mármores de terras otomanas distantes e destina­das a lembrar subtilmente o imenso poder dos homens que se reuniam lá dentro.

 

O guia levou-nos depois ao harém, onde o sultão vivia com a família, as criadas e uma população variável de concubinas. Só um pequeno número dos seus mais de 300 quartos estão abertos ao público, mas mesmo as­sim senti-me desorientada e claus­trofóbica ao percorremos inúmeras câmaras e corredores retorcidos com o chão de cerâmica. A dada altura emergimos para um pátio aberto, onde as janelas rendadas se abriam sobre a água na direção da cidade, para um mundo mais vasto e inalcançável. 

Depois de Topkapi visitámos ou­tras três grandes atrações: a Hagia Sofia, uma enorme igreja do século vi transformada em mesquita; a Mes­quita Azul, uma imensidão de cúpu­las e minaretes; o Grande Bazar, um vasto mercado coberto que parecia um jogo de vídeo no qual, em vez de inimigos, os homens que ofereciam descontos nos tapetes apareciam de todas as direções. Todos estes lugares eram atraentes e importantes, mas estavam repletos de pessoas e o dia quente. Quando entrámos a bordo do comboio nessa noite, a aplicação de saúde no meu telemóvel indicava que tinha caminhado 12 quilómetros.

Deliciei-me na cabina de duche de vidro enquanto o Danube Ex­press deslizava pela Estação Sirkeci. Naquela espaçosa cabina, forrada a madeira, podia sentar-me junto a uma janela grande e beber um cappuccino, ou reclinar-me junto a outra janela num sofá forrado com almofadas, que um assistente trans­formava numa cama confortável to­das as noites. 

Na carruagem seguinte ficava o bar, onde os empregados de luvas bran­cas distribuíam bebidas. Um homem tocava clássicos de jazz num teclado e por vezes no saxofone. A carrua­gem-restaurante era a seguir, uma visão de toalhas brancas e brilhantes e serviços de mesa elaborados. En­quanto jantava meloa com presunto de Parma, cogumelos Wellington, bolo de limão e depois fruta e queijo, pensei inevitavelmente em Hercule Poirot e no Expresso do Oriente. Na verdade, o Danube Express evoca uma espécie de nostalgia pela nos­talgia, lembrando uma era de viagens elegantes tão distante que a maioria de nós apenas a conhece em segunda mão, através das obras de época.

Imaginei que a viagem poderia atrair os maníacos dos comboios mais empenhados e, embora alguns membros do nosso grupo bastante viajado já tivessem apanhado o ex­travagante Expresso Transiberiano, a maioria parecia menos atraída pelo comboio e mais pela facilidade do nosso itinerário, semelhante a um cruzeiro. Ser-se levado de um lado para o outro sem ter voltar a fazer as malas, carregá-las ou lidar com a lo­gística não é pouco em lugares como a Roménia rural, onde a infraes­trutura turística ainda é um pouco rudimentar.

 

Na manhã seguinte acordei na Bulgária. Do lado de fora da janela, um nevoeiro suave e as montanhas verdes dos Balcãs substi­tuíram a urbana Istambul. De noite o comboio avançou pouca-terra, pou­ca-terra, para noroeste, através das fronteiras voláteis de antigos impé­rios que foram motivo de guerra ao longo dos séculos mas agora estão quase esquecidas. 

Um pouco depois das 09h00 che­gámos à primeira paragem, a cidade fortificada medieval de Veliko Tar­novo, que foi erigida num monte tão íngreme sobre o sinuoso rio Yantra que, segundo uma piada local, de acordo com o nosso guia, as direções são dadas em termos de cima e baixo, em vez de direita e esquerda. Passá­mos pelo monumento equestre aos governantes da dinastia Asen, que foi derrubado pelos bizantinos em 1186, e depois visitámos a fortaleza Tsarevets, que não foi suficiente para travar os turcos. 

Numa aldeia próxima, Arbanasi, visitámos a Igreja da Natividade, do século xvi, uma estrutura baixa de pedra que parecia uma sala de reu­niões para hobbits. O interior, den­samente decorado com santos em vermelho, ouro e verde, deu-me a vertiginosa impressão de um calei­doscópio sagrado. Uma ilustração que ocupava quase por completo uma parede mostrava um homem a ascender à fortuna e glória antes de cair para a ruína e o inferno. Talvez uma lição para os impérios.

Ao regressarmos a bordo do Danube Express nessa noite, dei-me conta de que não passei muito tempo no comboio. Imaginei horas de lazer a ler na cabina, mas não tardei a per­ceber que, em viagens como aquela, é de noite e de manhã cedo que se percorrem as maiores distâncias. O dia era para as visitas, sempre in­teressantes, e, como a nossa viagem coincidia com o final de uma onda de calor, sempre caracterizadas pela procura da sombra.

Que tal isto para maratona de vi­sitas? No dia seguinte desembar­cámos às 07h45, na cidade alpina transilvana de Sinaia, para visitar o castelo Peles, regressámos a bordo para uma viagem rápida à cidade de Brasov, apanhámos um autocarro para o castelo Bran para jantar e vol­támos ao comboio às 23h00, altura em que caí na cama. Meia dúzia de passageiros, todos eles com décadas de idade a mais do que eu, vão tomar uma bebida à carruagem-bar. São verdadeiros heróis.

Nos tempos modernos os castelos colocam um dilema: são habitações pouco práticas e já não servem fina­lidades defensivas, mas deixá-los ruir seria uma pena. Por isso, a entrada deve ser paga e a curiosidade culti­vada. Visitamo-los para nos ligarmos ao passado, para nos maravilharmos perante a ideia de viver numa es­trutura tão vasta. O castelo Peles foi principalmente construído na dé­cada de 1870 como palácio de verão para Carol I, que se tornou príncipe regente da Roménia em 1866 e, na sequência do respetivo reconheci­mento formal como país, o primeiro rei em 1881, o que, honestamente, parece um pouco tarde para iniciar uma monarquia. 

Aninhado nos montes Cárpatos do Sul, o Peles é uma fantasia com 160 divisões, com um estilo que abarca tudo, conhecido como neorrenas­cença. Do lado de fora parece um pavilhão de caça bávaro exagerado, com madeiras e espiras. Por dentro é uma montra de decoração, com ca­racterísticas outrora futuristas, como um cinema e sistema de aspiração centralizado. Os toques finais foram acrescentados em 1914, apenas trinta e três anos antes de os comunistas te­rem assumido o controlo de todas as propriedades reais. Ao passear pelas salas acessíveis ao público do Peles tenho um estranho sentimento de melancolia pelos seus construtores, que não tiveram consciência do fim iminente da sua era dourada.

O castelo Bran também estimula a imaginação, mas mais por razões de marketing do que algo relacionado com factos históricos. Construído na segunda metade do século xiv como fortaleza contra os invasores, incluindo, é verdade, os turcos oto­manos, o Bran é conhecido como o castelo do Drácula, um nome para atrair turistas, reforçado pelas ban­cas, amontadas no seu sopé como uma aldeia feudal, que vendem pre­sas de plástico e T-shirts com lobos que brilham no escuro.

Na década de 1970, as agências de viagens empreendedoras promoviam o castelo baseadas na ténue ligação de Vlad, o Empalador, um príncipe da Valáquia do século xiv com pre­dileção para espetar os inimigos oto­manos em estacas. Acredita-se que foi a inspiração para o vampiro fic­cional de Bram Stoker. Infelizmente, Stoker nunca foi à Transilvânia e não há provas concretas de que tenha ba­seado o seu conde sedento de sangue em Vlad, o Empalador

O castelo Bran é uma daquelas atrações que transcendem o foleiro. Empoleirado num afloramento ro­choso, é cativante, romântico e ge­nuinamente assustador. Lá dentro há espaços residenciais atraentes pin­tados de branco. Passando por uma estreita escada de pedra emergimos numa sala elevada onde nos espera uma mesa comprida. Portas fran­cesas abrem-se para uma varanda com vista para as torres do castelo e o pátio – o cenário para um jantar privado. Um quarteto de cordas toca enquanto jantamos e conversamos sobre viagens, como tendem a fazer os companheiros de excursão. Ne­nhum morcego voou no crepúsculo, mas por vezes uma refeição e uma brisa são suficientes. 

 

No último dia, quando acordo descubro que os campos de milho da Roménia deram lugar à grande planície húngara, uma vasta área de prados que ocupa a metade oriental da Hungria. Paramos para uma última excursão, que envolve provar a schnapps local e ver um es­petáculo equestre tradicional. Em Bu­dapeste desembarcamos do Danube Express pela última vez. 

Nessa noite sento-me junto ao rio a beber um Aperol spritz e a ver o pôr­-do-sol precisamente da cor de um Aperol spritz. Passam barcaças. Algu­mas raparigas conversam na margem murada com as pernas a penderem sobre a orla. 

Tal como Istambul, Budapeste é uma cidade antiga. Romanos, hu­nos, visigodos, magiares, otomanos, Habsburgos, nazis, soviéticos – todos ajudaram a moldá-la. Os pináculos da cidade escurecem em silhuetas e penso como é louca e, na realidade, comovente, a crença humana de que a permanência das cidades, das fron­teiras e dos modos de vida continua apesar de todas as provas acumuladas em contrário.

Um dia, os viajantes poderão fa­zer viagens concebidas para desper­tar um sentimento de nostalgia pela nossa era. Um dia, as pessoas poderão olhar para os nossos poderosos proje­tos e rir. Um dia – e isto é certo – sere­mos nós os antigos.