Vestidos para Vencer

 

O Rio está a vestir-se para os Jogos Olímpicos. Mas, desde barbas a biquínis, regras estritas regulam o que os participantes irão usar.

 

DAVID THOMAS

 

EM MARÇO DE 2012, A FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE VOLEIBOL fez um anúncio que abanou o mundo do desporto. Abandonou formalmente uma regra que tornara o voleibol de praia adorado por homens de todo o mundo. As mulheres já não seriam obrigadas a usar biquínis.

Até esse ponto, as regras do desporto tinha estipulado que os calções dos biquínis deviam ter «um máximo de largura lateral de sete centímetros». Mas as novas regras permitiam «calções de comprimento máximo de três centímetros acima do joelho, e tops com ou sem mangas».

 

A federação apresentou a mudança como forma de facilitar a adesão de mais países ao voleibol de praia. «Mui­tos desses países têm requisitos cultu­rais ou religiosos, por isso o uniforme precisava de ser mais fle­xível», explicou o porta­-voz Richard Baker.

Mas os pregadores fundamentalistas não eram os únicos inimigos do biquíni. O voleibol de praia tinha-se tornado uma causa feminista. A comissão de desportos da Austrália tinha in­vestigado a «exploração sexual» nos desportos, queixando-se de que as mulheres tinham sido levadas a usar «unifor­mes intensionalmente [desenhados] para focar a atenção nos corpos das atletas, e não por qual­quer razão tecnológica, prática ou de melhoria do desempenho».

As jogadoras em si, no entanto, não correram a adotar o novo visual. Nas palavras de Kerri Walsh, a estrela de voleibol de praia dos Esta­dos Unidos: «Nós precisamos de usar biquíni. Não queremos usar roupas largas. Descobrimos uma coisa que é funcional e ousada ao mesmo tempo.»

As suas colegas de competição evi­dentemente concordaram. Como ex­plica um porta-voz da federação, com a formalidade cansada de quem já res­pondeu demais a perguntas sobre este assunto: «Nas Olimpíadas de Londres, as atletas optaram por usar os uniformes tradicionais, como continua a ser o caso do Circuito Mundial.» 

No Rio, o voleibol de praia terá lugar na areia de Copacabana. E se há um sítio no mundo em que um biquíni é verda­deiramente apropriado é aquele. Por isso os ad­miradores de mulheres altas, bonitas, em forma e com pouca roupa po­dem ficar descansados. Mas, ainda assim, isto levanta outra questão interessante: que outras regras se aplicam à apa­rência dos atletas nos Jogos Olímpicos?

 

QUANDO OS JOGOS OLÍMPICOS da Antigui­dade começaram, há perto de 3000 anos, a única regra para roupas era «sem roupas». Todos os participan­tes era homens e todos competiam nus. As mulheres não podiam participar em nenhum dos eventos desportivos. Às mulheres casadas não era sequer per­mitido assistir aos Jogos, sob pena de morte. Uma mulher, no entanto, uma viúva chamada Callipateira ousou ser diferente – assim diz a lenda.

Queria apoiar o seu filho ginasta, Peisirodus. Por isso disfarçou-se como seu treinador masculino e acompa­nhou-o a Olímpia, onde ele ganhou a prova. Quando Callipateira saltou no ar para festejar a vitória, as suas roupas abriram-se, revelando o seu corpo de mulher. A sua vida foi poupada. Mas a partir daí todos os treinadores, tal como os atletas, foram obrigados a ir nus, para comprovar a sua masculinidade.

 

HOJE, AS REGRAS que regulamentam os desportos individuais são definidas pelos seus corpos dirigentes, supervi­sionados pelo Comité Olímpico Inter­nacional (COI).

Algumas, à primeira vista, parecem um pouco bizarras. Por exemplo, o artigo 23 das regras da União Mundial de Luta estipula que os «concorrentes devem estar perfeitamente barbeados. Se usarem barbas, elas não podem ter menos de 5 mm». Também estão proi­bidos de apresentarem qualquer suor no corpo quando chegam ao tapete antes de um encontro, ou no começo de cada período. Não podem «aplicar nenhuma substância gordurosa ou pe­gajosa no corpo». As atletas da compe­tição feminina não devem usar soutien com armação.

Há boas razões para todas estas re­gras. Um concorrente não pode ter uma barba curta, porque o seu queixo poderia «arranhar como lixa e abrir um golpe», de acordo com o organismo dirigente da luta desportiva.

Se o corpo de um lutador estiver sua-do ou gorduroso, isso torna-o muito mais difícil de agarrar e deixaria o ad­versário em desvantagem. Um soutien com armação é proibido, porque «qualquer objeto metálico, o que também inclui fechos de correr, poderia ser um perigo durante uma luta e furar ou golpear um atleta».

Compreensivelmente, evitar que os concorren­tes ganhem vantagens injustas com os seus equipamentos é uma preocupação-chave. As regras para o ciclismo decretam que «o equipa­mento não seja adaptado para servir outro propó­sito além de vestir».

Como exemplo de um estilo que seria impe­dido, as regras mencio­nam «asas» entre os bra­ços e o corpo do ciclista, ou sapatos moldados para serem mais aerodi­nâmicos. De modo idên­tico, atletas em provas de saltos estão proibidos de usar sapatos com solas espessas e elásticas.

 

A IMPORTÂNCIA DA JUSTIÇA nos fa­tos de desporto foi realçada na natação em Pequim 2008, onde os nadadores que usavam fatos Speedo LZR ganha­ram 98% de todas as medalhas, batendo 23 recordes do mundo pelo meio.

Os fatos cobriam completamente os torsos dos nadadores e as suas per-nas, até aos joelhos ou até aos tornozelos. Os fatos Speedo não eram apenas super-hidrodinâmicos, reduzindo a resistência da água, mas também se dizia que aumentavam a flutuação dos nadadores. Alguns concorrentes até usaram múltiplos fatos, uns por cima dos outros, para flutuarem mais fa­cilmente e irem mais de­pressa.

Jason Rance, que di­rigiu a equipa de inves­tigação que produziu e desenvolveu o fato da Speedo, insistiu depois que os rumores sobre flutuação eram falsos: «A Speedo sempre tes­tou a flutuação, porque não acreditamos que seja justo um fato que permita flutuar na água. Tudo o que fazemos é reduzir a resistência que o nadador enfrenta na água.»

Apesar disso, a FINA, a federação que controla o mundo da natação, baniu todos os fatos completos de alta tecno­logia, e a regras para os Jogos Olímpi­cos de 2016 vão no sentido de tornar os fatos de natação tão convencionais quanto possível. Todos os fabricantes cujos fatos forem usados em compe­tição devem fornecer um metro qua­drado do tecido de que estes fatos são feitos para garantirem que é aceitável.

 

A NATAÇÃO SINCRONIZADA tam­bém tem estado sob escrutínio. Além da ginástica rítmica, este é um dos dois desportos olímpicos em que apenas mulheres competem. E como em tantos outros desportos que envolvem mulhe­res, particularmente aqueles que têm um elemento de opinião estética, o as­sunto da aparência da mulher tornou­-se um tópico de debate aceso.

As nadadoras de natação sincroni­zada são atletas extremamente apu­radas, possuindo força, flexibilidade e uma tremenda resistência cardiovas­cular. Mas como vestem fatos coloridos e brilhantes e têm sorrisos estampados nas caras, podem por vezes parecer es­tereótipos de feminilidade submissa e oprimida.

No entanto, desde que as regras de­batem a aparência das nadadoras sin­cronizadas, elas procuram torná-las mais discretas do que exuberantes. Por exemplo, dizem: «Maquilhagem teatral é proibida. Maquilhagem normal que ofereça um brilho natural, limpo e sau­dável, é aceite.»

Os únicos comentários sobre ves­tuário vêm diretamente das diretivas para provas aquáticas controladas pela federação internacional de natação.

Dizem que: «os fatos devem ter bom gosto moral», e advertem especifica­mente para fatos que sejam de alguma forma transparentes.

Nem há sequer uma insistência para que as concorrentes de natação sincro­nizada tenham de sorrir. As regras di­zem simplesmente que serão atribuídos pontos por «exprimir o espírito da mú­sica» e pela «forma de apresentação».

A maioria dos números de natação sincronizada é acompanhada por mú­sica ritmada, apropriada aos movimen­tos que as atletas fazem. Esse estilo exige um sorriso, por isso é que as mulheres o fazem. Mas não há nada nas regras que as impeça de chorar copiosamente ao som da Marcha Fúnebre.

Por isso, talvez, como as voleibolistas de praia, as mulheres da natação sincro­nizada gostem simplesmente de usar roupas bonitas. Ao fim e ao cabo, os atle­tas de ambos os sexos são jovens com corpos fantásticos. Não devíamos ficar espantados por gostarem de os exibir.

 

AS REGRAS DO ATLETISMO dizem que as roupas dos atletas devem estar limpas «e desenhadas e usadas de forma a não ser censuráveis». Devem ser de materiais que «não sejam trans­parentes, mesmo quando molhados», e devem ser da mesma cor na frente e nas costas. Além disso, no entanto, compete aos corredores e às suas fede­rações escolher o que usar.

Os corredores masculinos, na sua maioria, ainda usam calções e coletes que pouco mudaram de aparência nos últimos 50 anos, embora os velocistas agora tendam a usar roupas justas, para facilitar o movimento e reduzir a resis­tência do ar. As mulheres, no entanto, largaram os calções e coletes, iguais aos homens, e adotaram roupas de duas peças muito mais pequenas e justas, que cada vez se parecem mais com biquínis de voleibol de praia.

Nenhuma regra estimulou esta mu­dança. É simplesmente o que as atletas querem usar. E mesmo quando ho­mens e mulheres olímpicos parecem usar roupas com aspeto tradicional, a mudança continua a dar-se.

Nas provas equestres, que são únicas no facto de homens e mulheres competirem uns con­tra os outros, continua a exigir-se roupas de montar cuja conceção remonta ao século XIX, mas os tecidos começam a ser substituídos por ou­tros mais modernos que mantêm os cavaleiros frescos, eliminam o suor e se adaptam aos seus movimentos.

A perceção é que o estilo equestre é anti­quado, mas agora já não é. Há atletas em roupas justas, e têm corpos es­pantosos, porque hoje em dia estão em muito boa forma.

 

É RAZOÁVEL PRESUMIR que muitas espectadoras são atraídas por um homem em boa forma física vestido com roupas de montar perfei­tamente ajustadas, tal como os homens o são por uma mulher elegante de bi­quíni. Mas isso não quer dizer que não exista genuíno sexismo no desporto e que as roupas não sejam parte disso.

Vejamos a história triste de Niklas Stoepel, de Wattenscheid, na Alemanha. Treinou o seu desporto desde os sete anos, atingiu os máxi­mos padrões do seu país e devia ter sido escolhido para apuramento para a equipa nacional alemã. Ele sonhava competir nos Jogos Olímpicos.

Havia apenas um pro­blema: Niklas, como um número crescente de ra­pazes e homens, era na­dador sincronizado. Não tinha objeções em rapar as pernas, como fazem os nadadores e os ciclistas, ou usar fatos brilhantes, como fazem os bailari­nos.

Mas o COI não auto­riza homens a competir nas provas de natação sincronizada. Em 2014, a federação mundial de natação mudou de ideias, e homens como Niklas puderam competir em duetos mistos.

O COI, no entanto, não mudou. Não haverá sincronizada mas­culina no Rio 2016. As mulheres podem calçar luvas de boxe, mas as regras proí-bem os homens de usar maquilhagem e roupas bonitas. E se isso não é discri­minação, o que é?