Vila Nova de Cerveira

Um verdadeiro céu aberto na terra.

Poucas povoações haverá em Portugal mais gentis e aliciantes que esta Vila Nova de Cerveira

Situa-se no Alto Minho, mesmo rente a um sereno e límpido trecho do rio Minho e no sopé de um monte granítico em cujos visos se recorta no céu a silhueta de um grande veado de bronze, ex-líbris da terra.

O topónimo insinua imaginações fantasistas: Vila Nova sugere acção de povoamento recente, quando todo aquele vale do rio Minho está densamente povoado desde, pelo menos, o Neolítico. Um arqueólogo minhoto, Luís Filipe Avis de Brito, é autor de um livro intitulado O Paleolítico no Minho, e sustenta aí, com provas convincentes, que já por aqui passaram bandos humanos há 600 000 anos. É crível, porque o rio é abundante em peixe, a serra é abundante em caça, e a terra tem numerosos abrigos naturais e lugares defensáveis. O vale do Minho foi, com grande probabilidade, uma das nascentes da população peninsular. Há por aqui perto muitos vestígios de monumentos megalíticos e de povoações castrejas. (...)

Se o povoamento da região era antigo e intenso, como se pode explicar que o rei D. Dinis, por volta de 1320, tenha fundado uma nova vila? O nome de Cerveira era o da terra: todo o distrito que vai desde os cimos da serra da Peneda até ao rio Minho chamava-se Terra de Cerveira, nome que sugere a abundância de caça grossa. E para quê uma vila nova? Porque toda a região era domínio ou de senhores ou de abades dos conventos. Tinham ali domínio os Conventos de Arga, de Loivo, de Barranques. Havia também o Castelo de Cerveira, sobre cuja localização não há certezas: no monte do Espírito Santo apareceram alicerces do que se supõe terem sido as torres de um castelo. Os nomes das aldeias revelam povoamento muito anterior ao início da monarquia. O que o rei Lavrador fez foi fundar uma vila onde os vizinhos eram livres de servidões e tributos. Para atrair moradores, deu-lhes privilégios tão valiosos como o de poderem vender os seus produtos para a Galiza sem pagarem tributos e o de elegerem os seus autarcas. Essa generosidade talvez tivesse o fito de instalar uma guarnição permanente junto ao rio, que era a fronteira, e deve ter sido esse o motivo que levou D. Dinis a cercar a sua nova vila de torres e muralhas.

O êxito foi imediato. A vila devia parecer aos servos dos domínios senhoriais um verdadeiro «céu aberto na terra». Nos desenhos do Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas, vê-se que a povoação já tinha ultrapassado as muralhas. Com o século XIX e a Regeneração acentuou-se muito o progresso económico, e a população cresceu ao ponto de, em 1875, a Câmara Municipal ter mandado demolir as torres e muralhas do lado sul para que a vila pudesse crescer mais à vontade.

O que restou do castelo, a parte voltada para o rio, albergava um bairro velho e desprezado. Em 1971, tudo isso foi transformado numa pousada turística de rara originalidade e que, além de outros, teve o mérito de salvar o que ainda restava do castelo dionísio.

O facto histórico mais recordado em Vila Nova de Cerveira é a resistência, em Fevereiro de 1809, à tentativa de passagem do rio pelo exército do marechal Soult. Este esforçara-se, em vão, por atravessar o rio em Seixas do Minho. Perante a oposição encontrada, fez nova tentativa em Vila Nova de Cerveira. A luta durou muitas horas, e os Franceses desistiram e procuraram uma raia seca. Isso atrasou os planos do invasor, porque só três semanas depois a vanguarda de Soult entrou pela fronteira de Chaves. Um obelisco comemorativo foi inaugurado no centro da vila em 1909.

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Excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva